Folha de S. Paulo
Como cantou Emicida, ser chamada de morena
'camufla o abismo entre si e a humanidade plena'
Bonito demais será o dia em que a noção de
que a beleza é exclusividade de quem tem traços caucasianos for superada de vez
Dia desses ganhei na loteria do absurdo mais
uma vez —coisa que me acontece com uma certa frequência. Estava quieta no meu
canto, esperando uma mesa num restaurante, quando uma jovem loira, que não
tirava os olhos de mim, resolveu se aproximar para fazer um suposto elogio:
"Parabéns! Você é uma morena muito bonita. Estou impressionada."
Agradeci educadamente, mas não pude deixar de
fazer a seguinte consideração: "Me alegra saber que reconheces a minha
beleza, mas eu não sou morena, sou negra mesmo."
A moça ficou injuriada, e resolveu retrucar
com um "Nossa! Não quis ofender. Chamei de morena porque você realmente é
bonita demais para uma negra".
É disso que se trata!
Como cantou Emicida,
ser chamada de morena "camufla o abismo entre si e a humanidade
plena" (Ismália). Sim, senhoras e senhores! É disso que se trata.
Eufemismos revelam muito sobre racismo,
preconceito e exclusão. Numa sociedade racista, a linguagem também é fator de
discriminação.
No Brasil, a negritude está associada ao
negativo, inferior, agressivo, ofensivo, pejorativo, ou seja, a tudo o que há
de ruim. Olha aí o exemplo recente do vereador de Ibiporã, no Paraná, que teve
a pachorra de dizer que "água
suja é tão podre que preto perde para ela".
Para quem ainda não sabe, usar uma palavra
considerada mais branda, agradável e sutil para amenizar o impacto de uma expressão
étnico-racial tida como desagradável, grosseira ou ofensiva é puro suco de
preconceito, racismo e discriminação.
É por isso que quem é preto e pardo
frequentemente é chamado de "moreno", "cor de jambo",
"escurinho", "pessoa de cor", "moreninho", termos
considerados "palatáveis", e que uma mulher preta, como eu, acaba
sendo considerada "bonita demais para uma negra".
Bonito demais será o dia em que a noção de
que a beleza é exclusividade de quem tem traços caucasianos for superada de
vez. Principalmente num território de maioria autodeclarada negra (56% pelo
IBGE), como é o nosso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.