segunda-feira, 9 de março de 2026

A teocracia iraniana e a guerra, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não tendo como ganhar esta guerra, sobra-lhe apenas disseminar o caos no Oriente Médio, atacando até aliados como o Catar e Omã. Perdeu o norte

A teocracia iraniana está vivendo o estertor de uma estratégia fracassada. Durante décadas, deu-se como missão a destruição do Estado de Israel. Sempre o declarou abertamente, embora a esquerda mundial se tenha feito de surda. Terminou, por via de consequência, compactuando com o assassinato iraniano de mulheres, a repressão constante de sua população, tratada como se fosse uma massa de escravos sem direitos. Sua opressão conta com milhares de vítimas. O silêncio predominou. Agora, repentinamente, essa esquerda voltou a se manifestar contra o ataque americano e israelense, como se a agressão iraniana a seu próprio povo fosse um mero direito dos aiatolás.

Não há algo que a ditadura teocrática tema mais do que os gritos pela liberdade. Os aiatolás ficam entorpecidos de ódio quando o povo toma as ruas clamando por ela. Detestam a democracia, vista como um inimigo mortal. Para eles, seria algo inimaginável permitir que as mulheres se vistam segundo seus gostos, que possam escolher com quem vão conviver sexualmente e/ou maritalmente, que possam, afinal de contas, escolher os seus governantes. Se há algo que a teocracia abomine, assim como essa esquerda, é que o povo escolha o seu destino. Se há algo que tema antes de nada é precisamente a soberania popular.

Neste contexto, tornou-se pertinente a qualificação em voga na França de um islamoesquerdismo, presente, inclusive, na nova diplomacia brasileira. Lula só é “humanista” contra Israel e os judeus, calando-se quanto ao assassinato de mulheres e homens iranianos. Não restou como argumento desses islamo-esquerdistas do que falar de “Direito Internacional”. Quanto ao direito de autodeterminação dos povos, nenhuma palavra, pois isso equivaleria a dar soberania ao povo iraniano contra a teocracia iraniana; ao povo venezuelano contra a ditadura chavista/madurista; ou, ainda, ao povo cubano contra a ditadura castrista.

Quando o Irã, por meio do Hamas e da Jihad Islâmica, satélites seus, decreta o massacre de 7 de outubro, com assassinatos indiscriminados de civis, em particular mulheres, jovens e crianças, não conseguiu medir a consequência de seus atos. Acreditou que poderia conter uma resposta decisiva israelense mediante uma pressão a ser exercida pela esquerda mundial e seus simpatizantes islamistas. Conseguiu, em parte, alcançar os seus objetivos, ao provocar uma grande onda de antissemitismo mundial, mas nada logrou na contenção israelense. A esquerda bem que tentou alcançar uma resposta “proporcional”, o que significaria apenas endossar o status quo de uma vitória parcial do terror. Os israelenses, com seus aliados americanos, não caíram nessa cilada ideológica.

Em atos subsequentes, o Hamas foi destruído, Gaza foi conquistada militarmente e as lideranças terroristas, aniquiladas. Na próxima cena, o Hezbollah, a mando do Irã novamente, começou a lançar foguetes contra a fronteira norte de Israel, tendo tido uma resposta de profunda repercussão com o episódio dos pagers, uma façanha tecnológica, a ocupação do sul do Líbano e a aniquilação de sua liderança. A esquerda continuou vociferando, falando de “desproporcionalidade”, como se proporcional fosse ser sacrificado sem proferir a mínima reação. Aproveitando-se do vácuo de poder na Síria, com a queda do ditador Assad, e o Irã perdendo outro de seus aliados, Israel destruiu materialmente os equipamentos militares sírios.

Faltava, então, para Israel afastar o perigo de um Irã vocacionado para a sua destruição, atacando em 2025 diretamente a cabeça desta rede terrorista. Com o apoio americano, destruiu os mais importantes sites nucleares, as lideranças militar e científica, além das defesas antiaéreas. O trabalho terminou, porém, incompleto, com o regime dos aiatolás voltando a enriquecer o urânio para emprego militar, aumentando a produção de drones e fabricando mísseis balísticos. Não contavam, todavia, com a determinação do presidente Donald Trump e do governo israelense.

Os americanos esgotaram os instrumentos diplomáticos, com os iranianos tentando enganá-los, ganhando tempo e se recusando a atender às exigências de não enriquecimento de urânio, de não produção de mísseis balísticos e de redução de seu arsenal, além de parar de sustentar financeiramente e militarmente seus satélites no Oriente Médio. Trump não é Obama nem Biden. Partiu para a guerra. Assinale-se, ainda, que se trata de uma guerra do século 21, baseada na imensa superioridade militar, cibernética, de inteligência artificial, científica e tecnológica de americanos e israelenses.

A teocracia iraniana não tem como ganhar esta guerra, sobrando-lhe apenas disseminar o caos no Oriente Médio, atacando os países árabes, mesmo aliados como o Catar e Omã. Perdeu o norte. Está criando, porém, um outro efeito colateral: o de produzir uma coligação de países árabes, sobretudo de fé sunita, contra ele mesmo. A teocracia iraniana empurra os países árabes a uma união ainda maior com os EUA e, inclusive, Israel. •

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.