segunda-feira, 9 de março de 2026

Força militar contra cartéis é ineficaz, Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Nova coalizão de cooperação em segurança exclui principais países da região como Brasil

Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.

A iniciativa reuniu uma dúzia de governos latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do último ano, cerca de 150 mortos.

A nova coalizão reúne, em grande parte, governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.

Não é apenas a exclusão desses três países que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em

artigo recente no New York Times, a ideia de derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em diferentes partes do mundo.

RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das organizações criminosas.

Dados recentes reforçam esse diagnóstico. Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende a se deslocar rapidamente para outras regiões.

Para Spektor e Montagner, o combate exige algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas dificilmente resolverá o problema.

 

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