O Estado de S. Paulo
Nova coalizão de cooperação em segurança
exclui principais países da região como Brasil
Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.
A iniciativa reuniu uma dúzia de governos
latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a
cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na
região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate
ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu
que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para
enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir
operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como
formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora
precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”,
disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como
organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra
lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do
último ano, cerca de 150 mortos.
A nova coalizão reúne, em grande parte,
governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de
Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica,
República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente
eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países
da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.
Não é apenas a exclusão desses três países
que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação
de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm
estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior
problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em
artigo recente no New York Times, a ideia de
derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental
sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da
América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam
como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que
conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em
diferentes partes do mundo.
RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases
ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El
Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que
operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la
mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte
demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do
mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da
mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em
operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de
eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente
apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das
organizações criminosas.
Dados recentes reforçam esse diagnóstico.
Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a
produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de
suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando
operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende
a se deslocar rapidamente para outras regiões.
Para Spektor e Montagner, o combate exige
algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados
financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que
sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro
de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas
dificilmente resolverá o problema.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.