terça-feira, 24 de março de 2026

Ambiguidade como arma de guerra, por Míriam Leitão

O Globo

Trump emite sinais contraditórios sobre o conflito no Oriente Médio: ora de ataque, ora de negociação. O fato é que a guerra atinge a economia e provoca estragos

O anúncio do presidente Donald Trump de que estaria havendo negociações com o Irã causou uma rápida reação positiva do mercado. Mas há pouca certeza de que isso esteja de fato ocorrendo ou venha a ter um bom resultado. O mais certo é que a volatilidade da cotação do petróleo vai continuar, ao sabor das incertezas. O Irã negou conversas diretas, mas admitiu contatos através de mediadores. Para os Estados Unidos, a guerra está provocando mais estragos do que Trump admite ou calculou que aconteceria. O Irã já sabe que consegue afetar o presidente norte-americano aumentando o custo econômico do conflito, porém ele também sabe quais as suas perdas e os seus limites.

O petróleo caiu ontem abaixo de US$ 100 pela primeira vez desde 11 de março, depois que Trump falou em negociações. Mente-se muito em guerras. E numa guerra liderada por um mentiroso contumaz, como Trump, fica mais difícil saber o que realmente está acontecendo. Recentemente, ele disse que mandaria tropas. O New York Times informou que “altos oficiais estão avaliando” o envio de uma brigada de combate, a 82ª divisão aerotransportada do Exército, “uma brigada de cerca de três mil soldados capaz de ser mobilizada para qualquer lugar do mundo em até 18 horas”. Todo mundo sabe o risco que é uma guerra com tropas no chão em território de outro país. São muitos os precedentes históricos provando que isso pode ser um pântano para os Estados Unidos.

Trump tinha ameaçado bombardear nesta segunda-feira as usinas de energia e de petróleo do Irã, caso o país não abrisse o Estreito de Ormuz. Ontem, dia de realizar a ameaça, ele anunciou que a negociação havia avançado fortemente e que haveria uma trégua de cinco dias. O analista de relações internacionais Uriã Fancelli acredita que o Irã nega porque a conversa pode não estar acontecendo ou porque o regime precisa demonstrar força internamente. Além disso, estaria escaldado com experiências recentes de acordos com os americanos. Na guerra de 12 dias, os Estados Unidos deram ao Irã um prazo de duas semanas e em três dias bombardearam o país. Recentemente, havia uma negociação mediada por Omã. Apesar disso, a guerra foi iniciada pelos EUA e por Israel.

Então, conclui Fancelli, pode ser que haja alguma tratativa de fato ou uma forma de ganhar tempo. É o que acha também o professor Augusto Teixeira, da Universidade Federal da Paraíba, que há uma possibilidade de que Trump esteja fazendo “uma gestão de crise” e ganhando tempo. Teixeira diz que falar em “desescalada” seria prematuro, e disse que o presidente norte-americano trabalha exatamente nessa ambiguidade. O interlocutor do governo iraniano que estaria negociando, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento, negou conversas com os Estados Unidos.

O fato é que o governo americano sente o peso da guerra e o risco de que o conflito aumente a impopularidade do presidente em ano eleitoral. Se perder a eleição de meio de mandato, o chefe da Casa Branca terá que rever sua estratégia de governo que tem sido, neste segundo mandato, de ataque muito mais direto às instituições democráticas. Se vencer a eleição de novembro, mantendo sua força no Congresso, Trump dobrará a aposta no seu projeto autocrático. Nos campos de petróleo do Oriente Médio, trava-se uma guerra que vai muito além da economia.

Mas, no campo econômico, ela tem sido desorganizadora para todos os países, inclusive Estados Unidos. Do contrário, o republicano não teria removido as sanções ao petróleo iraniano que já estava no alto-mar. A escalada de preços de petróleo tem causado estrago em muitas economias. E pior, pode se transformar em danos de longo prazo. O Brasil enfrenta dificuldades diretas com o preço e o suprimento do diesel. Uma fonte da área de importação privada de diesel, ouvida por Ana Carolina Diniz, disse o seguinte, sobre fornecimento de diesel: “A preocupação é como eu vou fechar a compra de um navio com 50 mil metros cúbicos — são 50 milhões de litros — sabendo que o produto vai chegar ao Brasil até R$ 2 por litro mais caro do que o preço praticado pela Petrobras? Será que eu vou conseguir vender?.”

A guerra se aproxima de um mês com cenário nebuloso e riscos para a economia global. Ninguém está a salvo nesse conflito em que os Estados Unidos e Israel contam como vitória as mortes de líderes iranianos, mas não conseguiram neutralizar o poder de fogo do Irã.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.