O Estado de S. Paulo
No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas ‘Memórias’ um paradigma do processo decisório diplomático
As Memórias de Marcos Azambuja, uma das mais
notáveis figuras da diplomacia brasileira, acabam de ser publicadas. Foram
instigadas pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), denso
centro de análise sobre a política externa brasileira, ao qual Marcos se
dedicou depois de sua aposentadoria no Itamaraty. No Cebri, Marcos encontrou
até o seu falecimento, em maio de 2025, um espaço para uma renovada vida
diplomática.
As Memórias são abrangentes na reflexão sobre a diplomacia brasileira. Resultam de três longas entrevistas. A primeira, em 1997, ao término de sua notável embaixada em Buenos Aires (1992-1997). Dela deflui uma excepcional análise da importância das relações Brasil-Argentina.
A segunda data de 2009. Amplia o escopo de
sua reflexão, tratando desde o Tratado de Tlatelolco, do campo do desarmamento
nuclear e de seus percalços. Inclui o bem-sucedido período da embaixada na
França (1997-2003), indicando como uma missão diplomática requer a percepção do
que é relevante para atuar num Estado a que está acreditado. É uma lição sobre
as artes da diplomacia.
O terceiro depoimento foi colhido em 2025, já
sob a expectativa de um arremate do impulso da publicação deste livro, que foi
estruturado e organizado numa fluida e cativante narrativa por Gelson Fonseca
Jr., Mônica Hirst e Alexandra de Mello e Silva.
O livro revela os ativos da personalidade, do
modo de ser de Marcos como pessoa e diplomata. Retém o muito válido tom da
oralidade, pois Marcos era um virtuoso da palavra falada, sempre apto a sintetizar
com precisão e graça a natureza do que estava em jogo. Com perfeição a ele se
ajustava a formulação de Octavio Paz: “A palavra que se ajusta ao movimento é
pele – não prisão – de pensamento”.
Na Rio-92, evento inaugural da inserção
multilateral do meio ambiente na pauta internacional, Marcos foi o qualificado
coordenador das posições brasileiras. Discutindo comigo, o então chanceler, as
dificuldades do andamento de um “novo”, ele observou: “Esta conferência é sui
generis. É a expressão de uma diplomacia aberta que combina facetas de Yalta,
da Conferência de São Francisco e a de Woodstock, da espontaneidade dos atores
não governamentais. Daí suas dificuldades”.
Para Marcos, a diplomacia não é uma atividade
pastoral de pregação de virtudes. Era um lúcido realista. Para ele, a
“diplomacia é o âmago do poder”. “Requer bons modos para não bater de frente,
mas é um exercício viril.” É um ofício que “requer polidez” para transmitir
“exigências muito firmes”, que são as das necessidades da nação, para lembrar Vattel.
O lúcido realismo de Marcos estava atento à
lição do Padre Antonio Vieira: “Perdemse as Repúblicas porque os seus olhos
veem o que não é, e não veem o que é”.
O realismo de Marcos não era imobilista e
conservador. Ele foi um realista esperançoso, atento ao olhar do potencial do
novo. Nas suas palavras: “Sou um grande tradicionalista, que tem um imenso
entusiasmo pelo novo”. As qualidades contrapostas deste oxímoro singularizam o
modo de ser, da pessoa e do atuar de Marcos.
Marcos foi, por isso mesmo, um mestre no
retratar e analisar transições, como destaca Gelson no seu prefácio. Essas
transições foram significativas na sua carreira.
No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a
análise das transições faz destas Memórias um paradigma do processo decisório
diplomático, iluminado pela perspectiva de “dentro” e não de “fora” da
experiência de quem as viveu. Por exemplo, a Política Externa Independente, o
Pragmatismo Responsável e as reorientações trazidas pelo fim da guerra fria.
Marcos analisa a passagem do Itamaraty
tradicional para o Itamaraty no qual ingressou. Este modernizou-se e adquiriu
institucionalidade com o ingresso na carreira de seus quadros pelo sistema de
mérito, implantado pelo Instituto Rio Branco.
Marcos aprecia e valoriza o Itamaraty, ao
qual dedicou sua vida. Entendeu que, pela qualidade de seus quadros e de sua
dedicação ao tema do lugar do Brasil no mundo, é uma instituição focada em
pensar o País. Nas suas palavras: “O Brasil é difuso e o Itamaraty consegue dar
ao Brasil do momento o seu foco”. Um foco que combina memória e inovação, como
explicitam as análises dos momentos de transição discutidas neste Memórias.
Eu penso que a avaliação de Marcos sobre o
Itamaraty é justa. Faço essa observação na condição de estudioso das relações
internacionais e de quem, não tendo sido diplomata de carreira, conviveu com o
Itamaraty como ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e exerceu a
função de embaixador. Por isso, refletindo sobre a experiência a respeito da
minha atuação no Itamaraty, observei em sintonia com ele: o Itamaraty é uma
instituição que tem autoridade no contexto da administração pública brasileira.
Sua palavra é menos que um comando, mas é mais do que um conselho, para
valer-me das características da autoridade na formulação de Mommsen.

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