domingo, 15 de março de 2026

Trump pôs a credibilidade em jogo, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Ímpeto do presidente de moldar mundo à sua imagem entra em conflito com o desejo de sucesso

A duração da guerra no Irã depende do desfecho de um conflito travado no governo americano. O secretário do Tesouro Scott Bessent e a chefe de Gabinete Susie Wiles advertem para os danos econômicos e políticos. Donald Trump lida com o desejo de deixar uma impressão profunda na história.

Quem observa Trump há muitos anos aponta nele uma obsessão por deixar sua marca, desde os primórdios como empresário do ramo imobiliário. Seus empreendimentos icônicos, assim como os produtos que ele criou, em geral sem sucesso, levam o nome “Trump” em letras garrafais.

Na sua viagem ao Golfo Pérsico, em maio, Trump esteve acompanhado dos filhos Donald Jr. e Eric e de Jared Kushner, casado com sua filha Ivanka. Eric e Kushner trataram de negócios bilionários das respectivas empresas enquanto Trump reforçava os laços econômicos e militares com a Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos.

Trump deseja estender o poder e prosperidade associado a seu nome de forma física, por meio dos herdeiros, e de forma simbólica, como o “presidente mais consequente da história”, segundo suas palavras. “Estamos fazendo isso pelo futuro”, afirmou ao anunciar a operação Fúria Épica, no dia 28.

“A definição de paz para ele é uma ordem mundial sob seu comando”, disse a biógrafa Gwenda Blair, autora de The Trumps: Three Generations of Builders and a President, ao colunista Michael Hirsh, da revista Foreign Policy. Assim, na cabeça dele, desfaz-se a contradição entre ser pacificador e iniciar uma guerra.

Quando ativistas do Maga apontaram no ano passado contradições com as bandeiras do movimento em suas atitudes de não liberar os Arquivos Epstein e de ordenar ataques no Caribe, ele respondeu: “Quem define o que é ou não Maga sou eu”.

O ímpeto de moldar o mundo à sua imagem entra em conflito com o desejo de sucesso. A Organização Trump quebrou seis vezes, com decisões nas quais o desejo de engrandecer sua marca falou mais alto do que a análise fria do mercado e do modelo de negócios. Agora, ele arrisca perder a maioria republicana na Câmara e no Senado, nas eleições de novembro.

O ímpeto é tão forte que prejudica sua visão. Na quarta-feira, Trump disse aos líderes do G-7 que o regime iraniano queria se render, mas não sobrara ninguém para anunciar a decisão. No dia seguinte, foi anunciada a escolha de Mojtaba Khamenei, que Trump tinha declarado “inaceitável”, pela Assembleia dos Peritos.

Trump apostou sua credibilidade perante líderes mundiais. E perdeu. •

 

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