domingo, 22 de março de 2026

As recaídas de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Petista deveria dar mais atenção ao BC e aproveitar a inflação razoavelmente contida e as condições favoráveis do emprego e da produção

O inferno são os outros, escreveu Sartre no final da peça Entre Quatro Paredes. Lula transformou essa frase – ou alguma equivalente – em explicação mágica para todos os seus problemas e especialmente, é claro, para os problemas dos brasileiros. Segundo o presidente, o combustível ficou mais caro no Brasil por causa de “pessoas que não prestam” e “tiram proveito da desgraça”. Ele também reclamou, mais uma vez, da política monetária, depois do corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros. “Acordei triste hoje porque esperava que o Banco Central abaixasse em 0,5% os juros. Essa guerra chegou até no Banco Central? Não é possível, estamos no sacrifício”, disse ele, aparentemente sem acreditar nos efeitos internacionais da guerra no Oriente Médio. Na mesma noite, apresentadores de tevê, sem exibir descrença e também sem cuidar de moralidade, noticiaram impactos da guerra em bolsas de valores.

Com ou sem participação direta de forças americanas, ações armadas têm sido rotineiras, há muito tempo, no Oriente Médio. Seus efeitos no mercado internacional têm sido variados e, com frequência, imperceptíveis, ou quase, para os brasileiros. Assim têm ido, também, conflitos na Europa, na África, na Ásia e até na América Latina. Algumas consequências, no entanto, são notadas e valorizadas pelas pessoas mais atentas ao comércio exterior. Guerras produzem efeitos também no Brasil, um país pacífico e pacifista, embora esse encadeamento possa parecer estranho ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas estranha, mesmo, é essa reação de um governante acostumado a viajar e a participar de eventos internacionais.

Se fosse mais atento aos comunicados e informes do Banco Central (BC), o presidente poderia notar referências frequentes à política e à economia internacionais. “O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais.” Essa afirmação abre o informe distribuído pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, para comunicar, na quarta-feira passada, a redução dos juros básicos de 15% para 14,75% ao ano.

A referência ao cenário internacional é rotineira e, em geral, aparece no início de textos desse tipo. Embora empenhado basicamente em controlar a evolução da atividade e dos preços internos, o comitê leva em conta as condições globais e seus efeitos na economia brasileira. Talvez pudesse agir de outra forma, se o País fosse isolado e pouco sensível às variações do mercado internacional. Mas essa é uma hipótese altamente improvável.

Rejeitada essa hipótese, resta aos políticos e aos principais administradores cuidar de um Brasil integrado na vida internacional e sujeito a influências econômicas, políticas, morais e culturais do ambiente global. Na maior parte do mundo, nem governos autoritários e muito poderosos têm tido sucesso integral no esforço de isolamento. No caso brasileiro, nem o poder dos governos militares conseguiu, ou mesmo tentou, um controle tão forte e tão amplo.

Mas nem sequer se pode acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de algum esforço de isolamento. Não, pelo menos, de um efetivo fechamento do Brasil ao jogo diplomático e às condições do comércio internacional. Ele pode ser sujeito, de vez em quando, a recaídas no petismo de meio século atrás e nas fantasias celebradas nos comícios do ABC, mas sem retomar, na área externa, as bandeiras da velha esquerda. Parece razoável dar-lhe esse desconto ao analisar duas declarações sobre a crise internacional e o BC.

Recaídas são evidentes quando ele parece desprezar as condições de equilíbrio e sustentabilidade das contas públicas. Em outras palavras, quando parece retomar a bandeira do “governar é gastar”, tão valorizada por uma parte da esquerda brasileira. Recaídas desse tipo, no entanto, podem ser passageiras e controláveis com a atuação de algum assessor ajuizado e influente. Será esse um dos papéis mais importantes de Dario Durigan, sucessor de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda.

Não há como atenuar ou disfarçar, no entanto, suas declarações sobre o BC e sobre a atuação de Roberto Campos Neto na presidência da instituição. Pode-se discutir essa atuação, como a de qualquer outro dirigente, mas os comentários e ataques de Lula são estritamente políticos, no sentido mais pobre dessa palavra. Campos Neto é atacado por ter sido nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro e por ter mantido vínculos com o bolsonarismo.

Lula se rebaixa em cada um desses ataques. Além disso, parece alinhar-se ao presidente Donald Trump, um governante empenhado, sem disfarce, em submeter o banco central dos Estados Unidos ao seu controle. O presidente Lula tem evitado manifestar a ambição de mandar no BC, mas nem sempre de forma convincente. Desperdiça energia e tempo com seus ataques e provocações, quando poderia aproveitar a inflação razoavelmente contida, embora um tanto longe da meta, e as condições favoráveis do emprego e da produção. São desperdícios estranhos no caso de um político experiente.

 

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