O Estado de S. Paulo
Petista deveria dar mais atenção ao BC e aproveitar a inflação razoavelmente contida e as condições favoráveis do emprego e da produção
O inferno são os outros, escreveu Sartre no final da peça Entre Quatro Paredes. Lula transformou essa frase – ou alguma equivalente – em explicação mágica para todos os seus problemas e especialmente, é claro, para os problemas dos brasileiros. Segundo o presidente, o combustível ficou mais caro no Brasil por causa de “pessoas que não prestam” e “tiram proveito da desgraça”. Ele também reclamou, mais uma vez, da política monetária, depois do corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros. “Acordei triste hoje porque esperava que o Banco Central abaixasse em 0,5% os juros. Essa guerra chegou até no Banco Central? Não é possível, estamos no sacrifício”, disse ele, aparentemente sem acreditar nos efeitos internacionais da guerra no Oriente Médio. Na mesma noite, apresentadores de tevê, sem exibir descrença e também sem cuidar de moralidade, noticiaram impactos da guerra em bolsas de valores.
Com ou sem participação direta de forças
americanas, ações armadas têm sido rotineiras, há muito tempo, no Oriente
Médio. Seus efeitos no mercado internacional têm sido variados e, com
frequência, imperceptíveis, ou quase, para os brasileiros. Assim têm ido,
também, conflitos na Europa, na África, na Ásia e até na América Latina.
Algumas consequências, no entanto, são notadas e valorizadas pelas pessoas mais
atentas ao comércio exterior. Guerras produzem efeitos também no Brasil, um
país pacífico e pacifista, embora esse encadeamento possa parecer estranho ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas estranha, mesmo, é essa reação de um
governante acostumado a viajar e a participar de eventos internacionais.
Se fosse mais atento aos comunicados e
informes do Banco Central (BC), o presidente poderia notar referências
frequentes à política e à economia internacionais. “O ambiente externo
tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no
Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais.” Essa afirmação
abre o informe distribuído pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC,
para comunicar, na quarta-feira passada, a redução dos juros básicos de 15%
para 14,75% ao ano.
A referência ao cenário internacional é
rotineira e, em geral, aparece no início de textos desse tipo. Embora empenhado
basicamente em controlar a evolução da atividade e dos preços internos, o
comitê leva em conta as condições globais e seus efeitos na economia
brasileira. Talvez pudesse agir de outra forma, se o País fosse isolado e pouco
sensível às variações do mercado internacional. Mas essa é uma hipótese
altamente improvável.
Rejeitada essa hipótese, resta aos políticos e
aos principais administradores cuidar de um Brasil integrado na vida
internacional e sujeito a influências econômicas, políticas, morais e culturais
do ambiente global. Na maior parte do mundo, nem governos autoritários e muito
poderosos têm tido sucesso integral no esforço de isolamento. No caso
brasileiro, nem o poder dos governos militares conseguiu, ou mesmo tentou, um
controle tão forte e tão amplo.
Mas nem sequer se pode acusar o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva de algum esforço de isolamento. Não, pelo menos, de
um efetivo fechamento do Brasil ao jogo diplomático e às condições do comércio
internacional. Ele pode ser sujeito, de vez em quando, a recaídas no petismo de
meio século atrás e nas fantasias celebradas nos comícios do ABC, mas sem retomar,
na área externa, as bandeiras da velha esquerda. Parece razoável dar-lhe esse
desconto ao analisar duas declarações sobre a crise internacional e o BC.
Recaídas são evidentes quando ele parece
desprezar as condições de equilíbrio e sustentabilidade das contas públicas. Em
outras palavras, quando parece retomar a bandeira do “governar é gastar”, tão
valorizada por uma parte da esquerda brasileira. Recaídas desse tipo, no
entanto, podem ser passageiras e controláveis com a atuação de algum assessor
ajuizado e influente. Será esse um dos papéis mais importantes de Dario
Durigan, sucessor de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda.
Não há como atenuar ou disfarçar, no entanto,
suas declarações sobre o BC e sobre a atuação de Roberto Campos Neto na
presidência da instituição. Pode-se discutir essa atuação, como a de qualquer
outro dirigente, mas os comentários e ataques de Lula são estritamente
políticos, no sentido mais pobre dessa palavra. Campos Neto é atacado por ter
sido nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro e por ter mantido vínculos
com o bolsonarismo.
Lula se rebaixa em cada um desses ataques.
Além disso, parece alinhar-se ao presidente Donald Trump, um governante
empenhado, sem disfarce, em submeter o banco central dos Estados Unidos ao seu
controle. O presidente Lula tem evitado manifestar a ambição de mandar no BC,
mas nem sempre de forma convincente. Desperdiça energia e tempo com seus
ataques e provocações, quando poderia aproveitar a inflação razoavelmente
contida, embora um tanto longe da meta, e as condições favoráveis do emprego e
da produção. São desperdícios estranhos no caso de um político experiente.

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