O Estado de S. Paulo
O Brasil é um dos poucos produtores capazes de aumentar a oferta de petróleo fora da zona de conflito
O Estreito de Ormuz é hoje o ponto de estrangulamento energético mais importante do planeta. Sua relevância resulta de uma combinação rara de geografia, concentração de petróleo e ausência de rotas alternativas eficientes. Uma região estratégica como rota comercial há milênios.
Segundo dados da International Energy Agency (IEA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo passam pelo estreito por dia – 20% do comércio global. Também é crítico para 20% do comércio mundial de gás.
Como nós já sentimos no bolso, o conflito no
Oriente Médio traz impactos globais com o aumento do preço do petróleo. O que
estamos nos dando conta é que, mesmo que o tráfego naval seja normalizado, os
mercados de energia já adotam nova posição com preços mais altos, contando com
volatilidade estrutural e a consideração de risco político mais elevado.
A crise expôs a fragilidade da logística
energética global. As alternativas, como oleodutos pelo Oriente Médio ou outras
rotas na região, são insuficientes para substituir o canal. Isso mostra que a
estrutura global de oferta é mais vulnerável do que se pensava antes da crise.
A dolorosa lição de Ormuz é a constatação de que o mundo precisa de uma
estratégia em camadas que considere o desvio logístico, gerando maior colchão
de segurança e reduzindo a dependência. Não podemos achar que é possível
“resolver” a situação de uma só vez, mas devemos reduzir a vulnerabilidade.
No entanto, com a continuidade da crise, o
Brasil surge frequentemente nas análises internacionais como um dos países com
maior capacidade marginal de ajudar a compensar a oferta global de petróleo –
ao lado de EUA, Canadá, Guiana e alguns produtores africanos. Temos uma
produção total de petróleo de aproximadamente 3,8 milhões de barris/dia e
exportamos cerca de 2 milhões de barris/dia, o que nos coloca entre os 10
maiores produtores de petróleo do mundo.
Especialistas indicam que nosso país pode
acrescentar de 1,5 a 2 milhões de barris/dia até o final da década. O Brasil
não vai resolver o problema, mas é um dos poucos produtores capazes de aumentar
a oferta fora da zona de conflito. A nova geopolítica da energia está sendo
redesenhada por crises, conflitos e gargalos logísticos. Nesse mapa, o Brasil
aparece em posição singular: grande produtor, fora das zonas de tensão e com acesso
direto aos principais mercados consumidores.
O País talvez nunca seja um “swing supplier”
clássico como a Arábia Saudita, mas pode tornar-se um fornecedor cada vez mais
relevante em momentos de turbulência. A oportunidade está posta. O risco, como
tantas vezes em nossa história econômica, é menos geológico do que político:
transformar uma vantagem estrutural em mais um caso de potencial desperdiçado.
•

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.