quarta-feira, 25 de março de 2026

Caiado ou Eduardo, a escolha de Sofia de Kassab para candidato do PSD, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O líder do PSD vive um drama político. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o partido, mas mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior

Com a surpreendente desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, de se candidatar à Presidência da República, o ex-prefeito Gilberto Kassab está diante de uma escolha de Sofia: tem dois nomes para substituí-lo, os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e do Rio Grande Sul, Eduardo Leite, e precisa indicar um deles para concorrer à Presidência. No jargão político, a expressão é usada para descrever situações muito difíceis, em que qualquer decisão representa uma grande perda, como no romance A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice, em inglês), de William Styron, publicado em 1979.

O livro relata a história de Stingo, um jovem sulista aspirante a escritor que vai morar em uma pousada no Brooklyn, onde conhece um casal que vive um turbulento caso de amor e ódio, Nathan Landau, um judeu que se apresenta como um cientista, e Sofia Zawistowk, uma polonesa sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. Stingo se envolve com a bela Sofia, assombrada pelas lembranças da terrível escolha que precisou fazer um dia.

No cinema, a história valeu o Oscar de melhor atriz para Meryl Streep e popularizou a expressão mundialmente. A trama dirigida por Alan J. Pakula conta a história de Sofia, uma polaca acusada de contrabando, que é presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina, no campo de concentração de Auschwitz durante a II Guerra. Um sádico oficial nazista dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução, ou ambas morrerão, obrigando-a à terrível decisão. O trauma é relembrado por Sofia em 1947, ao viver o triângulo amoroso com o jovem escritor.

Com as devidas ressalvas, Kassab vive um drama de opção política. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o PSD, mas mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior, que resolveu permanecer no governo do Paraná até o final do mandato, com objetivo de fazer seu sucessor. “A decisão foi tomada na noite de domingo, após profunda reflexão com sua família. O fato foi levado ao conhecimento do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab”, diz o comunicado. Ratinho Júnior “pretende voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho”.

Na verdade, Ratinho Júnior foi atropelado pela filiação ao PL do senador Sergio Moro, o ex-juiz de Curitiba do caso Lava-Jato e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Embora fosse o candidato com mais possibilidades eleitorais na lista do PSD, o governador do Paraná chegou à conclusão de que perderia a eleição para Presidência e, com a eleição de Moro, a sua própria sucessão no estado.

A disputa pela indicação agora é entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Nesta terça-feira, Leite publicou um vídeo mirando os eleitores de Ratinho Júnior: “Estou com energia, disposição e verdadeiramente interessado em liderar um projeto que ajude a despolarizar o país. Quero muito ajudar o país a encontrar um caminho que una os brasileiros, não no mesmo pensamento, mas no mesmo propósito. Tenho certeza de que é uma eleição possível”, afirmou.

Dois perfis

Entretanto, quem primeiro se encontrou com Kassab foi o governador de Goiás. Segundo o presidente do PSD, Caiado apenas manifestou sua disposição e motivação em ser candidato. “A questão (por quem será escolhido) é política. Envolve muita conversa com pessoas que torcem para que o partido tenha o melhor desempenho possível. Não é disputa, é convergência”, disse Kassab, que não pretende fazer prévias nem decidir apenas com base em pesquisas, e chamou o governador Eduardo Leite para uma conversa, amanhã.

Leite seria o substituto natural de Ratinho Júnior, mas a filiação de Caiado ao PSD mudou o cenário. A avaliação positiva do governo de Goiás é a mais alta do país, e Caiado está à frente de Leite nas pesquisas eleitorais. Ninguém sabe os critérios adotados por Kassab para ungir o seu candidato, mas todos sabem que seus governadores, prefeitos e deputados estão liberados para apoiar Flávio Bolsonaro ou a reeleição do presidente Lula. Isso pode resultar na inevitável “cristianização” do candidato a presidente da República do PSD.

Parece uma grande contradição, mas não é. Uma candidatura para inglês ver deixaria o terreno livre para que Kassab possa administrar as contradições da legenda nos estados e somar forças para apoiar o candidato que esteja à frente nas pesquisas. Seus ministros Alexandre Silveira (Minas e Energia) e André de Paula (trocará a Pesca e Aquicultura pela Agricultura) permanecem no governo; Carlos Fávaro (Agricultura) deixará o governo para renovar seu mandato na Câmara, mas manterá seus aliados na pasta.

Como as eleições estão muito polarizadas entre o presidente Lula, que pretende continuar na Presidência, e o senador Flávio Bolsonaro, mantendo uma candidatura à Presidência, pode ser que o PSD tenha votos suficientes para decidir a eleição no segundo turno. Caiado e Leite têm perfis muito diferentes, embora sustentem que se apoiarão reciprocamente, ou seja, qualquer que seja a escolha.

Caiado é um candidato claramente de direita, muito combativo, com um currículo político de quem passou por tudo na política brasileira: foi candidato a presidente em 1989, exerceu dois mandatos de deputado federal e dois de senador, governa Goiás desde 2019. Leite foi vereador e prefeito de Pelotas, está no segundo mandato de governador e não tem o mesmo trânsito de seu concorrente no Congresso. Seu diferencial é uma trajetória política de centro-esquerda, que agora deriva à centro-direita.

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