Correio Braziliense
O líder do PSD vive um drama
político. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o partido, mas mal
consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior
Com a surpreendente desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, de se candidatar à Presidência da República, o ex-prefeito Gilberto Kassab está diante de uma escolha de Sofia: tem dois nomes para substituí-lo, os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e do Rio Grande Sul, Eduardo Leite, e precisa indicar um deles para concorrer à Presidência. No jargão político, a expressão é usada para descrever situações muito difíceis, em que qualquer decisão representa uma grande perda, como no romance A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice, em inglês), de William Styron, publicado em 1979.
O livro relata a história de Stingo, um jovem
sulista aspirante a escritor que vai morar em uma pousada no Brooklyn, onde
conhece um casal que vive um turbulento caso de amor e ódio, Nathan Landau, um
judeu que se apresenta como um cientista, e Sofia Zawistowk, uma polonesa sobrevivente
do campo de concentração de Auschwitz. Stingo se envolve com a bela Sofia,
assombrada pelas lembranças da terrível escolha que precisou fazer um dia.
No cinema, a história valeu o Oscar de melhor
atriz para Meryl Streep e popularizou a expressão mundialmente. A trama
dirigida por Alan J. Pakula conta a história de Sofia, uma polaca acusada de
contrabando, que é presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina,
no campo de concentração de Auschwitz durante a II Guerra. Um sádico oficial nazista
dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução, ou ambas
morrerão, obrigando-a à terrível decisão. O trauma é relembrado por Sofia em
1947, ao viver o triângulo amoroso com o jovem escritor.
Com as devidas ressalvas, Kassab vive um drama
de opção política. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o PSD, mas
mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior, que
resolveu permanecer no governo do Paraná até o final do mandato, com objetivo
de fazer seu sucessor. “A decisão foi tomada na noite de domingo, após profunda
reflexão com sua família. O fato foi levado ao conhecimento do presidente
nacional do PSD, Gilberto Kassab”, diz o comunicado. Ratinho Júnior “pretende
voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o
apresentador Ratinho”.
Na verdade, Ratinho Júnior foi atropelado
pela filiação ao PL do senador Sergio Moro, o ex-juiz de Curitiba do caso
Lava-Jato e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Embora fosse o
candidato com mais possibilidades eleitorais na lista do PSD, o governador do
Paraná chegou à conclusão de que perderia a eleição para Presidência e, com a
eleição de Moro, a sua própria sucessão no estado.
A disputa pela indicação agora é entre o
governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo
Leite. Nesta terça-feira, Leite publicou um vídeo mirando os eleitores de
Ratinho Júnior: “Estou com energia, disposição e verdadeiramente interessado em
liderar um projeto que ajude a despolarizar o país. Quero muito ajudar o país a
encontrar um caminho que una os brasileiros, não no mesmo pensamento, mas no
mesmo propósito. Tenho certeza de que é uma eleição possível”, afirmou.
Dois perfis
Entretanto, quem primeiro se encontrou com
Kassab foi o governador de Goiás. Segundo o presidente do PSD, Caiado apenas
manifestou sua disposição e motivação em ser candidato. “A questão (por quem
será escolhido) é política. Envolve muita conversa com pessoas que torcem para
que o partido tenha o melhor desempenho possível. Não é disputa, é
convergência”, disse Kassab, que não pretende fazer prévias nem decidir apenas
com base em pesquisas, e chamou o governador Eduardo Leite para uma conversa,
amanhã.
Leite seria o substituto natural de Ratinho
Júnior, mas a filiação de Caiado ao PSD mudou o cenário. A avaliação positiva
do governo de Goiás é a mais alta do país, e Caiado está à frente de Leite nas
pesquisas eleitorais. Ninguém sabe os critérios adotados por Kassab para ungir
o seu candidato, mas todos sabem que seus governadores, prefeitos e deputados
estão liberados para apoiar Flávio Bolsonaro ou a reeleição do presidente Lula.
Isso pode resultar na inevitável “cristianização” do candidato a presidente da
República do PSD.
Parece uma grande contradição, mas não é. Uma
candidatura para inglês ver deixaria o terreno livre para que Kassab possa
administrar as contradições da legenda nos estados e somar forças para apoiar o
candidato que esteja à frente nas pesquisas. Seus ministros Alexandre Silveira
(Minas e Energia) e André de Paula (trocará a Pesca e Aquicultura pela
Agricultura) permanecem no governo; Carlos Fávaro (Agricultura) deixará o
governo para renovar seu mandato na Câmara, mas manterá seus aliados na pasta.
Como as eleições estão muito polarizadas
entre o presidente Lula, que pretende continuar na Presidência, e o senador
Flávio Bolsonaro, mantendo uma candidatura à Presidência, pode ser que o PSD
tenha votos suficientes para decidir a eleição no segundo turno. Caiado e Leite
têm perfis muito diferentes, embora sustentem que se apoiarão reciprocamente,
ou seja, qualquer que seja a escolha.
Caiado é um candidato claramente de direita, muito combativo, com um currículo político de quem passou por tudo na política brasileira: foi candidato a presidente em 1989, exerceu dois mandatos de deputado federal e dois de senador, governa Goiás desde 2019. Leite foi vereador e prefeito de Pelotas, está no segundo mandato de governador e não tem o mesmo trânsito de seu concorrente no Congresso. Seu diferencial é uma trajetória política de centro-esquerda, que agora deriva à centro-direita.

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