Folha de S. Paulo
Suporte da maioria, revelado pelo Datafolha,
contraria discurso reacionário
Não há motivo para deixar de aprovar pelo
menos a jornada de 40 horas
Uma consistente maioria de 71% dos
brasileiros apoia o fim da escala 6x1,
de acordo com recente pesquisa
Datafolha. Por esse modelo, o trabalhador é submetido a seis dias de
trabalho e um de folga por semana. O resultado é positivo no momento em que
vozes reacionárias levantam-se para defender um tipo de arranjo trabalhista
retrógrado, que deveria envergonhar o país.
É o caso do deputado federal Marcos Pereira, presidente do Republicanos, partido do bolsonarista Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Em entrevista
à Folha, o parlamentar disse que "ócio demais faz
mal" e que uma redução da jornada tiraria a competitividade
das empresas brasileiras. Segundo ele, "quanto mais
trabalho, mais prosperidade". Com menos tempo laboral, prosseguiu, o
trabalhador ficaria "mais exposto a drogas, a jogos de azar".
"Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer
de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?"
Após a repercussão negativa dessas
deploráveis considerações, o deputado saiu-se com um esfarrapado pedido de
desculpas. A visão de Pereira não é tão estranha mesmo a setores supostamente
mais modernos e sofisticados do empresariado. As reações históricas às
propostas de direitos trabalhistas, desde as pressões pelo fim da escravidão,
são recorrentes.
Além do alarmismo característico do tipo
"as empresas vão quebrar", temos as conhecidas considerações sobre a
necessidade de elevação da produtividade do trabalho.
Às vezes tem-se a impressão de que
trabalhadores exercem seu ofício no vácuo e não em corporações. É evidente que
a equação não se reduz à mão de obra. Se empresas não investem em inovação e
mantêm equipamentos e rotinas defasados, o aumento da produtividade torna-se
difícil, por mais que alguém ainda possa ter a tentação de acreditar que com
umas "chibatadas" a mais a coisa possa caminhar.
Há também argumentos baseados em estudos.
Esses ao menos nos remetem a uma discussão em tese mais racional. Uma redução
da jornada para 40 horas semanais, dizem especialistas, praticamente não traria
perdas. Já um corte para 36 horas poderia acarretar redução de até 7,4% do PIB…
Será mesmo? Dado que a economia escapa com frequência a tentativas
cientificistas de torná-la exata –e dado também que especialistas erram com
frequência estimativas mais simples–, reservo-me o direito a certa cautela
quanto a esse tipo de projeção.
A redução para 40 horas por semana é assunto,
a meu ver, que deveria estar fora de questão. Não só a meu ver, considerando a
pesquisa Datafolha. Não há o que discutir. As empresas precisam melhorar
rotinas, métodos e tecnologias para absorver o suposto custo. E a sociedade
pode estar disposta a bancá-lo, dentro do razoável.
No caso da jornada de 36 horas, um debate
mais aprofundado seria desejável e proveitoso.
Não é demais lembrar, porém, que todos os
países do G7 têm jornada semanal inferior às nossas 44 horas semanais,
assim como a maior parte do G20. Canadá tem a menor média, com 32,1 horas
semanais, seguido por Austrália, Alemanha e França, com médias de 32,3, 34,2 e
35,9. Há estudos e experimentos na Europa de esquemas ainda mais flexíveis.
Felizmente temos uma mobilização pela mudança entre nós.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.