Folha de S. Paulo
Fiz duas listas para avaliar a relação entre
literatura e filosofia nas obras de Hannah Arendt e Simone de Beauvoir
Não é mais fácil, como eu pensava, escrever
sobre o tema a partir dos romances de Beauvoir
Concluí, no último sábado, a redação de mais um artigo acadêmico sobre a relação entre literatura e filosofia na obra de Simone de Beauvoir. Essa será a minha quarta publicação sobre o tema.
Em trabalhos anteriores, ocupei-me dos
romances "Todos os Homens São Mortais" (1946) e "Os Mandarins" (1954). Desta vez, no entanto,
dediquei-me à análise de "O Sangue dos Outros" (1945) e examinei sua
relação com algumas das ideias propostas por Beauvoir em "Por uma Moral da
Ambiguidade" (1947), que, no próximo ano, completa 80 anos de publicação.
Parte das questões que abordei no artigo também foi objeto de algumas das minhas colunas mais recentes para a Folha.
Em uma delas, refleti sobre como o romance de
Beauvoir ilustra a complexa relação
entre liberdade e responsabilidade a partir das vivências de seus
protagonistas durante a ocupação da França pelos nazistas. Em outra, analisei a
figura de Moisés e comentei a relação entre ética
e fracasso no pensamento da autora. Por fim, escrevi sobre como
Beauvoir trata da relevância
política da nossa capacidade de julgar, em contraste com a perspectiva de
Hannah Arendt.
Lembro que, nessa última coluna, também
mencionei a importância de sempre relermos nossos escritores prediletos. Além
disso, destaquei algumas das vantagens de tentarmos estabelecer um diálogo
entre suas obras, mesmo que uma leitura comparativa sirva apenas para nos
ajudar a identificar e expor, com maior clareza, algumas das divergências entre
esses autores.
Voltei a pensar sobre isso durante o final de
semana. No sábado, assim que finalizei o trabalho, falei com meu marido sobre o
novo texto que começaria a escrever na segunda-feira —um ensaio acadêmico sobre
a relação entre literatura e filosofia na obra de Arendt— e disse que era muito
mais simples escrever sobre esse tema no caso de Beauvoir. Mas será mesmo?
Resolvi, então, elaborar duas listas: uma com
as semelhanças entre Arendt e Beauvoir e outra com as diferenças, destacando as
características da obra de cada pensadora que, até aquele momento, para mim,
favoreciam a reflexão sobre a relação entre literatura e filosofia na obra de
Beauvoir.
Entre as semelhanças, observei que Arendt e
Beauvoir faziam parte da mesma geração, viveram por algum tempo na mesma
cidade, Paris, e testemunharam, a partir de experiências distintas, muitos dos
mesmos eventos políticos da primeira metade do século 20. Observei também que,
tanto no caso de Arendt quanto no de Beauvoir, esses eventos serviram de ponto
de partida para as reflexões que elas propuseram sobre as tensões entre moral e
política.
Igualmente, verifiquei que Arendt e Beauvoir
buscaram compreender de que modo tais acontecimentos afetavam a vida das
pessoas. Beauvoir escreveu romances que exploravam alguns dos dilemas
enfrentados pelos seus conterrâneos, enquanto Arendt dedicou-se a ensaios
biográficos sobre personalidades da época, como a escritora dinamarquesa Karen
Blixen, o poeta Bertolt Brecht e os filósofos Karl Jaspers, Martin Heidegger e
Walter Benjamin.
Antes de elaborar essas listas, eu acreditava
que o fato de Beauvoir escrever ficção a partir de sua abordagem filosófica
facilitava meu trabalho. As listas, porém, revelaram aspectos da obra de Arendt
que eu não havia considerado em reflexões anteriores, colocando minha opinião
em perspectiva.
Embora Arendt jamais tenha escrito um romance
—escreveu parábolas, poemas e até mesmo uma fábula, nenhuma das quais foi
publicada em vida—, sua obra filosófica também possui valor literário. Afinal,
ela era uma ensaísta extraordinária, e o ensaio, como
afirmei em uma coluna anterior, é um gênero literário profundamente marcado
pela experimentação, podendo contemplar tanto a fabulação quanto a contação de
histórias.
A questão, portanto, não é que seja mais
fácil escrever sobre a relação entre literatura e filosofia na obra de
Beauvoir, mas que, para abordar esse mesmo tema a partir de Arendt, é preciso
identificar as características centrais de seu estilo ensaístico, sobretudo o
modo como ela utiliza citações, para assim compreender o tipo de história que
ela nos conta.
É sobre isso que devo escrever durante as
próximas semanas, enquanto trabalho no meu próximo artigo acadêmico. Por ora,
deixo aqui uma pequena homenagem às listas, com seu poder de destacar
conteúdos, revelar semelhanças e chamar minha atenção para as diferenças entre
os autores que costumo estudar.

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