Por Alícia Bernardes e Fabio Grecchi / Correio Braziliense
Comissão fecha sem relatório, rejeitado por
19 x 12. Nos bastidores, críticas eram de que sessões tornaram-se palanque e
que investigações de fraudes ficaram em segundo plano
Depois de sete meses de funcionamento, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS encerrou os trabalhos na madrugada de ontem de forma melancólica — sem a aprovação de um relatório final. O parecer apresentado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), foi rejeitado por 19 x 12. Sem consenso e sem a designação de um novo relator, o colegiado presidido pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) deu por concluída sua tarefa.
Segundo Viana, o fato de não ter um
relatório oficial não quer dizer que o esforço foi em vão. Ele afirmou que as
aproximadamente cinco mil páginas do documento produzido por Gaspar serão
encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), à Procuradoria-Geral da
República (PGR) e a Polícia Federal (PF) com as conclusões, indiciamentos e
sugestões da CPMI. Os governistas chegaram a elaborar um relatório alternativo,
que incluía, entre outros, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ). Mas sequer foi analisado.
A CPMI nasceu sob o signo da disputa
eleitoral entre bolsonaristas e governistas. O Palácio do Planalto tinha a
certeza de que emplacaria o senador Omar Aziz (PSD-AM) no comando do colegiado.
Porém, a desarticulação deu à oposição a brecha necessária para eleger Carlos
Viana e, na sequência, escolher Alfredo Gaspar relator. A eleição dos dois foi
intensamente comemorada e gerou uma crise na articulação do governo, com toda a
culpa recaindo sobre o líder no Senado, Jaques Wagner (BA). Aos integrantes da
base aliada restou colocar o deputado Duarte Junior (PSB-MA) na
vice-presidência do colegiado para tentar conter os danos.
A sessão de encerramento sem
um documento oficial foi o derradeiro ato de um colegiado que, conforme
análises recolhidas pelo Correio nos bastidores do Congresso, perdeu-se ao dar
mais importância a projetos eleitorais pessoais do que, realmente, cavar fundo
o poço da fraude contra aposentados e pensionistas da Previdência. O fato de os
trabalhos continuarem por um ano eleitoral — e pretendeu-se a prorrogação,
derrubada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) na quinta-feira, por
8 x 2 —, deu esperanças a vários de seus integrantes de que a comissão lhes
desse visibilidade visando as urnas em outubro. Daí por que as agressões
verbais e os conflitos tornaram-se regra nas sessões. Afinal, geram cortes e
engajamento nas redes sociais.
Um dos momentos em que ficou patente que a
ideia era fazer barulho junto à militância foi a sessão que aprovou a quebra
dos sigilos do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais
velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Num ambiente tumultuado e cuja
votação foi confusa, os bolsonaristas tiveram certeza de que tinham conseguido
algo tão poderoso que colocaria o Palácio do Planalto contra a parede. Houve
bate-boca, pedido de recontagem e mesmo troca de safanões entre os deputados
Rogério Correia (PT-MG) e Luís Lima (Novo-RJ).
"Filho do rapaz"
Entre os bolsonaristas, havia a certeza de
que Lulinha era o "filho do rapaz", conforme disse um funcionário de
Antonio Camilo Antunes, o Careca do INSS — apontado como chefe do esquema de
fraudes —, e que o filho do presidente era o beneficiário de uma mesada de R$
300 mil. O próprio Carlos Viana, porém, indagado ao ser entrevistado no
programa Roda Viva, da TV Cultura, dia 16, afirmou que nada fora encontrado
contra Lulinha.
A CPMI também elegeu o STF como adversário.
Ao desobrigar que convocados prestassem depoimento e que convidados
comparecessem, a Corte deu munição, sobretudo, aos parlamentares bolsonaristas,
que intensificaram a campanha permanente que fazem contra os integrantes do
Supremo. Nem mesmo o ministro André Mendonça, que substitiu Dias Toffoli à
frente do inquérito do Banco Master, foi poupado. Principalmente ao
determinar a restrição de acesso ao material relacionado a Daniel Vorcaro,
depois que alguns deles, que não tinham nenhuma conexão com a investigação da
comissão, foram vazados para a imprensa — como os diálogos íntimos que o
ex-banqueiro manteve com a ex-namorada, a modelo e infuenciadora Martha Graeff.
Indiciamentos
A sessão que marcou o desfecho da comissão
começou na manhã de sexta-feira e se estendeu por mais de 15 horas. Em sete
meses, a comissão ouviu dezenas de testemunhas, incluindo servidores do INSS,
representantes de entidades investigadas, vítimas das fraudes e autoridades
públicas. Também foram aprovadas centenas de quebras de sigilo bancário, fiscal
e telemático. O relatório de Gaspar pedia o indiciamento de mais de 200
pessoas por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato
e corrupção.
Entre os nomes citados no parecer estavam o
de Lulinha, o do ex-ministro da Previdência Carlos Lupi, o do senador Weverton
Rocha (PDT-MA) e o do ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto. O texto
também sugeria medidas como prisão preventiva de investigados e o sequestro de
bens.
Do outro lado, o relatório alternativo
elaborado por governistas — organizado pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS)
— defendia uma linha distinta de responsabilização. O texto previa o
indiciamento de cerca de 130 pessoas, incluindo Bolsonaro e o senador Flávio. A
base argumentava que as fraudes se intensificaram no governo anterior ao atual,
após mudanças normativas que teriam fragilizado os controles sobre descontos
associativos.
A oposição atribuiu a derrota do relatório de Gaspar à atuação da base do governo, que se juntou ao Centrão. Já os governistas criticaram o parecer do relator, apontando viés eleitoral nas conclusões.

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