Por Danandra Rocha, Victor Correia e Wal Lima / Correio Braziliense
Imposições, traições, duplos apoios... Tem de
tudo no quadro de algumas unidades da Federação, o que não ajuda na construção
de palanques para Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais pré-candidatos à
Presidência da Republica
A eleição dá os primeiros passos e a confusão das alianças em alguns estados já parece nós difíceis de desatar. Tem desde a imposição de nomes a veteranos da política, e bons de voto, sendo escanteados. Tem candidato caindo de paraquedas para disputar cargo eletivo por um estado onde não tem história política. Tem até presidenciável desistindo da disputa para evitar perder o controle da máquina local.
Quando se pensa em imposição de nomes, na
base do "dedaço", com a consequente porta fechada a um veterano bom
de voto, Santa Catarina é o melhor
exemplo. O PL lançou Carlos Bolsonaro — que fez a carreira política no Rio
de Janeiro e foi imposto pelo pai a disputar pelo estado — e Caroline de Toni
ao Senado, alterou uma composição que vinha sendo discutida com outras siglas.
Incluía a reeleição do senador Esperidião Amin, veterano político
catarinense e um dos nomes mais respeitados do Congresso.
Integrantes de legendas como o PP, ouvidos
sob reserva, relataram insatisfação com a condução do processo e apontaram o
enfraquecimento de acordos antes alinhados. Bom de voto, Amin foi
jogado para escanteio, mas, para o presidente nacional do PL, Valdemar Costa
Neto, isso não faz muita diferença. Ele rebateu críticas de lideranças
locais, como o ex-senador Leonel Pavan, que classificou a movimentação como
"loucura". Valdemar tenta convencer, agora, ex-aliados de que
existe uma relação de Carlos Bolsonaro com o estado.
"Ele sempre frequentou Santa Catarina,
tem amigos lá e pretende trabalhar pelo estado", afirmou. Valdemar
assegura: a mudança de domicílio eleitoral do filho 02 não foi motivada por
estratégia eleitoral. O problema é convencer disso os aliados de Amin, que
esperava contar com Flávio Bolsonaro para permanecer no Senado. Agora, está por
conta própria.
Outro estado em que o embrulho está difícil
de ser desfeito é o Paraná. Ratinho Junior deixou a disputa presidencial para
tentar interromper a progressão do senador Sergio Moro ao Palácio Iguaçu. Disse
que não queria se indispor com o filho 01 de Bolsonaro, mas pretende lançar a
jornalista Cristina Graeml, bolsonarista e filiada ao União Brasil, na disputa
ao Senado. Só que Moro pretende apoiar o ex-deputado Deltan Dallagnol, também
do União Brasil, para o Senado. Flávio já manifestou apoio a Moro, em cuja
cerimônia de filiação ao PL Dallagnol esteve presente, e apoiará o deputado
Filipe Barros (PL) ao Senado. E a bolsonarista Cristina? Nos bastidores se
comenta que com o apoio apenas de Ratinho ela não se torna competitiva.
Ainda na Região Sul, o problema é à esquerda
nas terras gaúchas. No Rio Grande, alas do próprio PT estão em conflito. A
direção nacional e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendem um
acordo com o PDT para apoiar Juliana Brizola ao Palácio Piratini. O presidente
chegou a receber Juliana no Planalto, ao lado do presidente do PDT e
ex-ministro da Previdência, Carlos Lupi. Após uma reunião com o presidente
nacional do PT, Edinho Silva, Lupi chegou a confirmar a candidatura em postagem
nas redes sociais, mais foi desmentido rapidamente pelos petistas.
O diretório gaúcho mantém a candidatura
do presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto.
Após reunião com a Executiva Nacional, na terça-feira passada, o PT-RS divulgou
uma nota reforçando a posição. Nas pesquisas, até o momento, Juliana teve uma
performance melhor do que Pretto, ao disputar contra o deputado federal Luciano
Zucco (PL-RS), já lançado como pré-candidato.
Kassab ultrapassado
A saída do governador do Paraná tornou-se um
problema para Gilberto Kassab, presidente do PSD, que, ontem, viu seu campo de
ação ficar limitado. Ele pretendia embarcar na vice de Tarcísio de Freitas
(Republicanos) para a reeleição, mas a filiação do vice-governador Felício
Ramuth ao MDB atrapalhou seus planos. Isso porque Ramuth pretende continuar
como vice do governador e, também, porque atrela o partido aos planos de
Tarcísio e do prefeito paulistano Ricardo Barros de abrir um leque para apoiar
Flávio Bolsonaro em São Paulo.
Com o MDB paulista ligado ao bolsonarismo,
fica prejudicado o plano de Lula de ter um emedebista como vice para tentar
mais essa reeleição. Isso vinha incomodando Geraldo Alckmin e o PSB, que
achavam que tinham de ser recompensados pela fidelidade. As condições para isso
estão dadas: 1) Alckmin deixa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio até a próxima quinta-feira e se coloca exclusivamente à disposição da
campanha de Lula; 2) a ministra Simone Tebet, do Planejamento, filiou-se aos
socialistas para buscar o Senado na chapa de Fernando Haddad ao Palácio do
Ipiranga. Mas tem um problema nessa equação: o que fazer com Márcio França,
ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte?
Sua pretensão de buscar o Senado estão prejudicadas.
No Ceará, o plano A de Lula é a reeleição de
Elmano de Freitas (PT), mas ele está atrás do ex-governador Ciro Gomes (PSDB),
favorito na disputa, nas pesquisas. Em evento em São Carlos (SP), na
semana passada, o presidente sinalizou ter um plano B, com o ministro da
Educação, Camilo Santana. "Camilo não é candidato, mas vai se afastar para
ficar de olho, na expectativa. Se precisar, ele vai ser candidato", disse.
Em Pernambuco, Lula tem a possibilidade de um
palanque duplo: tanto o prefeito de Recife, João Campos (PSB), quanto a
governadora Raquel Lyra (PSD), buscam o apoio do petista.
No que se refere a Minas Gerais, a chapa
lulista está perto de contar com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Ele jantou com o presidente nacional do PSB e prefeito de Recife, João Campos,
para discutir sua filiação à sigla.
No bolsonarismo, porém, as coisas estão
confusas. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) lidera com folga todos os
cenários testados, chegando a registrar entre 34% e 45% das intenções de voto,
mas é visto como um nome não tão alinhado assim ao clã Bolsonaro — que gostaria
de ver Mateus Simões (PSD/Novo) mais forte. Inclusive, o ex-vice de Romeu
Zema, que é pré-candidato ao Palácio do Planalto, tem feito várias agendas no
interior do estado com o deputado Nikolas Ferreira (PL), que aos poucos vai se
tornando uma liderança na extrema-direita à parte do bolsonarismo.
No Maranhão, um racha recente embolou a chapa
de Lula. O atual governador, Carlos Brandão, segundo petistas, descumpriu
acordo firmado em 2022 e lançou seu sobrinho, Orleans Brandão (MDB), como seu
sucessor. Isso rompeu os planos do PT de lançar uma chapa com o vice-governador
Felipe Camarão (PT) como principal representante, e obrigou o partido a
repensar as alianças. O próprio presidente tentou mediar a situação e
manter o acordo anterior, sem sucesso.
Agora, o PT desenha apoio ao prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), favorito nas pesquisas até o momento. A proposta feita a Braide é que Camarão seja lançado a uma vaga no Senado. No momento, porém, a costura não está confirmada. Um dos entraves é que Braide também busca apoio de siglas da direita, como o PL, que já sinalizou de forma positiva. O próprio prefeito ainda não confirmou publicamente a intenção de concorrer, e faz mistério sobre quando se desincompatibilizará do cargo.

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