O Estado de S. Paulo
É mais fácil alienar o pobre, remediando sua
pobreza, do que criar instituições para ajudá-lo a prosperar
Eis uma questão que requer um seguro ou, talvez, um envergonhado “depende”... Depende da pessoa, das circunstâncias, do lugar. Em geral, a esperteza engloba o crime, dissolvendo-o na moldura da malandragem e do “arrumar-se” como um modo consentido e “esperto” de “ficar rico”.
O crime é relativo a muitas circunstâncias.
Tirar dinheiro do pai, vender gato por lebre, falsificar documentos ou roubar
livros de bibliotecas públicas são espertezas, malandragens e jeitinhos. Tais
práticas, feitas por parentes e amigos, serão enquadradas na ética de
reciprocidade da “casa” ou da categoria profissional, o que os jornais chamam
de “corporativismo”. Ora, o corporativismo tem como base precisamente esse
transbordamento pessoal que anula regras igualitárias impessoais em favor de
simpatias e favores pessoais, o que leva à desmoralização institucional e à
descrença na igualdade, visto que a obrigação de retribuir favores anula normas
profissionais. Há um óbvio desequilíbrio entre costumes jamais criticados e
normas legais racionais, de modo que não conseguimos ultrapassar a dominação
tradicional, efetivando a dominação burocrática.
Dilema que se expressa no batido: se for
“nosso”, é esperteza; se for “deles”, é crime!
Nesse axioma cultural há a incontornável
força dos hábitos e costumes que – como definiu E.B. Tylor em 1871 – são
aprendidos pelos membros de uma sociedade como “cultura”.
Se o nosso sistema moral adota uma ética de
ambiguidade, a igualdade como um ideal antiaristocrático sofre aceitação ou
rejeição. Se eu roubar numa ciranda financeira impessoal, por intermédio de uma
prestigiosa rede pessoal, o crime pode virar esperteza. Mas sem elos políticos
importantes a esperteza corre o excepcional risco de virar crime.
Como sair dessa ambiguidade determinada pelo
axioma de que a sociedade é feita de doutores e analfabetos, sabidos e trouxas?
Como acabar com pobres e ricos, abandonando a
ideia de que são os ricos que vão, nobremente, acabar com os pobres, em vez de
pensar num sistema no qual todos possam enriquecer?
É mais fácil alienar o pobre, remediando sua
pobreza, do que criar instituições capazes de fazê-lo prosperar. Mas como abrir
o cofre das fortunas sociais de modo igualitário e universal?
Será somente pela política, como até hoje insistimos em imaginar? Ou seria pela criação de um movimento de conscientização igualitária, por intermédio de uma simplificação desses legalismos que sustentam um obsoleto sistema cultural incapaz de distinguir crime e esperteza. •

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