O Estado de S. Paulo
A disparada no preço do petróleo colocou os
principais bancos centrais do mundo contra a parede
A disparada no preço do petróleo, com a guerra no Irã, colocou os principais bancos centrais do mundo contra a parede e deixou a decisão de hoje do Copom envolta em suspense. O plano original era iniciar um ciclo de afrouxamento monetário com redução de 0,50 ponto porcentual dos juros, mas, com o choque de oferta causado pelo conflito no Oriente Médio, a dúvida é se esse primeiro corte pode ser em ritmo menor, de 0,25 ponto, ou até mesmo se a taxa Selic pode ficar inalterada em 15%.
Cada banco central no mundo vai reagir de
forma diferente aos efeitos adversos do choque de oferta de petróleo, em razão
da interrupção do fluxo de petroleiros no Estreito de Ormuz. Em alguns países,
o maior impacto é inflacionário, diante da dependência da importação de
petróleo e gás natural, a exemplo da Zona do Euro – ainda traumatizada pela
disparada dos preços de combustíveis após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Em outros
países, o choque de oferta causa mais estrago à atividade econômica do que à
inflação. É o caso do Chile.
A reação dos diferentes bancos centrais
também vai depender de onde estava a política monetária – o nível dos juros –
antes do início da guerra no Irã. Na Zona do Euro, por exemplo, a taxa básica
está em 2%, nível considerado como neutro (nem estimula nem desaquece a
economia). Ou seja, uma pressão inflacionária exigiria uma ação imediata, com
aperto monetário.
No Brasil, a política monetária está bastante
restritiva com a Selic a 15%. Além disso, a postura do Copom, ao lidar com um
choque de oferta, é não reagir ao impacto primário, isto é, na inflação cheia
(que inclui os custos de energia e de alimentos), mas, sim, aos efeitos
secundários: os preços subjacentes que apontam a dinâmica da inflação. Se a
gasolina subir, o BC não tem muito a fazer. O objetivo é impedir que essa alta
contamine outros preços. Como não se sabe até quando a oferta mundial de
petróleo será afetada, levando o aumento de custo dos combustíveis a
propagar-se pela economia, poderia o Copom começar a cortar os juros já hoje?
A resposta está no câmbio. Apesar da guerra,
o dólar ainda está bem abaixo da cotação utilizada como referência na sua
última decisão (R$ 5,35). Isso não pressiona as expectativas inflacionárias e
dá espaço para queimar a gordura dos juros. Mas, como o risco geopolítico é
elevado, o cenário requer cautela. Iniciar o ciclo com um corte menor, de 0,25
ponto, daria flexibilidade ao Copom para acelerar o ritmo na próxima reunião se
a crise se acalmar. E, assim, ganhar credibilidade.

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