terça-feira, 31 de março de 2026

Cuba é o próximo alvo de Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Ajudar o povo cubano não significa apoio a seu governo. Latino-americanos precisam, mais que nunca, ser solidários

Se você acorda com a sensação de que este mundo é maluco, tem razão. Uma das causas: o homem mais poderoso é um estúpido. Trump declarou guerra ao Irã usando o falso pretexto de que havia ameaça à segurança americana. A capacidade nuclear dos iranianos já tinha retrocedido décadas com os bombardeios de junho.

Trump achou que o bombardeio levaria multidões às ruas para derrubar a ditadura sangrenta dos aiatolás. Tremendo erro de avaliação. Ninguém sairia às ruas para ser morto pela Guarda Revolucionária, quase ninguém se sentiria à vontade para lutar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, horrorizados com a destruição de uma escola em que morreram mais de 150 crianças.

Trump diz que a guerra acabará logo porque devastou o Irã. Os iranianos fecham o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial. Isso significa inflação e queda no crescimento em quase todo o planeta.

Trump passa parte do tempo ora anunciando acordo, ora proclamando vitória, numa tentativa de deter o aumento do barril de petróleo. O pior é que já anunciou seu próximo objetivo: Cuba. Sua nova aventura será na América Latina. Ele considerou um sucesso a incursão na Venezuela. Sucesso pelo petróleo, fracasso pela democracia. Ficou evidente que, para ele, não importam princípios. Qualquer ditadura favorável é melhor que uma democracia independente.

Trump diz que, desde menino, se interessou por Cuba. Agora quer conquistá-la e entregá-la para Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos, Rubio fala fluentemente espanhol. Mas isso não o torna cubano.

A ilha não é um lugar qualquer. Apesar de haver uma ditadura que oprime os dissidentes impiedosamente, tem experiência militar, um exército aguerrido e uma grande parte da população ao lado do governo. Uma bomba numa escola cubana terá uma repercussão sem precedentes.

Quando Trump se move na América Latina, o Brasil precisa se posicionar. É difícil aceitar o bloqueio que impede a chegada de petróleo à ilha. Os apagões atingem o povo cubano, e não seus dirigentes. No mês passado, uma caravana de apoiadores internacionais de esquerda estava num hotel de luxo iluminado enquanto os cubanos amargavam mais um apagão.

Quando Trump der o próximo passo que anuncia, uma importante questão política se colocará, sobretudo para os latino-americanos. É justo levar mais sofrimento ao resiliente povo cubano? É justo que suas crianças estejam sob qualquer tipo de bombardeio?

O próprio bloqueio atual precisa ser combatido. O Brasil não pode vender petróleo porque isso atingiria a Petrobras na Bolsa de Nova York. Mas alimentos, remédios e outros itens humanitários deveriam ser enviados com urgência, como faz o México.

Ajudar o povo cubano neste momento não significa apoio a seu governo. É algo entre latino-americanos que precisam, mais que nunca, ser solidários diante de um governo norte-americano sem limites, sem objetivos claros, sem doutrina — apenas um grande caminhão laranja atropelando indistintamente quem encontra pela frente.

 

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