O Globo
Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de
fazer o mesmo caminho do pai. Caiado promete anistia a Bolsonaro e o defendeu
em palanque
O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.
Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão
no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros,
os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à
ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e
superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre,
mas Jair
Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo,
bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo
voto eletrônico era fraudada.
Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro
começa a mesma ladainha. No
Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão
diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer
acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre
convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para
“assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo
puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados
corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da
ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores
conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de
Estado.
O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes
os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado
defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo
Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do
uso da força”.
No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas
ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de
Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as
forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as
separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade,
o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.
O governador Ronaldo
Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a
pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em
que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em
palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.
O governador Eduardo Leite foi direto e
contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na
semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro.
“Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem
representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da
República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional
como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que
ser julgado e preso”.
Caiado
repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”.
Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar
o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia
plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve
ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais”
mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que
“democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime
organizado, mas não valoriza o que o país construiu.
Dois dos três pré-candidatos da eleição de
2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que
sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de
1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro
da política brasileira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.