O Globo
Se esse menino Vorcaro tivesse estudado
comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens
D. Norma foi professora de português a vida
inteira. Começou por volta dos 4 anos de idade, corrigindo o irmãozinho caçula,
que dizia “gugu dadá” em vez de “Augusta, dê-me a mamadeira”. E não parou mais.
Estudou letras na época em que regência e
concordância ficavam no capítulo de sintaxe, não no de opressões linguísticas.
Aposentada há décadas, anda horrorizada com os zaps do Vorcaro.
— Se esse menino tivesse estudado comigo, não
estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens. Que semântica
bisonha! Que vernáculo comezinho!
É que D. Norma é desconectada do mundo real e apegada a tecnicalidades.
— Um enxovalho, uma ignomínia isso. Gastar R$
3,3 milhões em degustação de uísque em Londres para ministros da Justiça e do
STF, procurador-geral da República, diretor-geral da Polícia Federal,
presidente da Câmara e escrever para a consorte: “Todos ministros do brasil /
Do stf / Stj / Etc / E euzinho discursando”. Cáspite! Nome próprio e sigla de
três letras com minúscula! Omissão de artigo definido! Etc sem ponto! Com
efeito! E pronome pessoal no diminutivo? Isso é caso de CPI!
Outra coisa que a enerva sobremaneira é a
falta de clareza:
– “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Bloquear o quê, ou quem? Que fim levou o objeto direto? Ter notícia do quê?
Cadê o complemento nominal? Um texto mal redigido pode levar a ilações, a
interpretações equivocadas. Por isso eu era intransigente nas aulas de análise
sintática.
Ela tampouco se conforma com a pronúncia —
incorreta, a seu ver — do nome do finado esquema de pirâm..., digo, do finado
banco.
— É mister que se corrija essa silabada! Se
está escrito Master, sem acento, então é oxítona, como colher, mulher,
qualquer. Máster, em português, é acentuada, assim como caráter, cadáver,
líder.
— Mas é palavra estrangeira, D. Norma!
— Estrangeira para você, lusofalante ingrato!
Meu país, minhas regras ortográficas. O STF devia seguir o exemplo do
Ministério Público Federal em Minas Gerais e impor uma multa de uns R$ 130
milhões a quem pronunciasse ou escrevesse errado.
Mas à noite, no aconchego da alcova, D. Norma
liga o celular, ganho do bisneto (“Não preciso disso, não vou usar essa
tralha!”) e revê, em loop (palavra que abomina), a festa de noivado do
ex-banqueiro. Deleita-se com as ruínas romanas, a pletora de velas, o piano
suspenso, o decote do noivo (mais profundo que o da noiva). E pranteia aquela
face outrora viçosa e bem tratada, agora relegada a água e sabão. Os cabelos um
dia fartos e embebidos em sândalo (fantasia dela), ora reduzidos a máquina 2. E
a barba... ah, a barba...
A barba de um homem é seu castelo. Mulheres
mudam a cor e o corte do cabelo, lapidam a sobrancelha, reforçam o carmim da
boca, o rubor da face — ao homem, resta a barba. Mulheres usam salto alto,
vestido vermelho, fenda, renda, espartilho — ao homem, resta a barba. Sem ela,
o banquirroto lhe parece zebra sem listra, unicórnio sem chifre, pavão depenado
— não o magnata que teve os três Poderes da República na algibeira.
Então estanca uma furtiva lágrima, limpa o
histórico de visualizações e, antes de dormir, vai ler uma ou duas páginas de
Napoleão Mendes de Almeida e meditar sobre o Código de Ética escrito pelo
escritório Barci de Moraes.
D. Norma é a única pessoa que entende os
desvãos da alma humana e a regra do hífen — mas não explica pra ninguém.

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