sábado, 14 de março de 2026

D. Norma, a culta, por Eduardo Affonso

O Globo

Se esse menino Vorcaro tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens

D. Norma foi professora de português a vida inteira. Começou por volta dos 4 anos de idade, corrigindo o irmãozinho caçula, que dizia “gugu dadá” em vez de “Augusta, dê-me a mamadeira”. E não parou mais.

Estudou letras na época em que regência e concordância ficavam no capítulo de sintaxe, não no de opressões linguísticas. Aposentada há décadas, anda horrorizada com os zaps do Vorcaro.

— Se esse menino tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens. Que semântica bisonha! Que vernáculo comezinho!

É que D. Norma é desconectada do mundo real e apegada a tecnicalidades.

— Um enxovalho, uma ignomínia isso. Gastar R$ 3,3 milhões em degustação de uísque em Londres para ministros da Justiça e do STF, procurador-geral da República, diretor-geral da Polícia Federal, presidente da Câmara e escrever para a consorte: “Todos ministros do brasil / Do stf / Stj / Etc / E euzinho discursando”. Cáspite! Nome próprio e sigla de três letras com minúscula! Omissão de artigo definido! Etc sem ponto! Com efeito! E pronome pessoal no diminutivo? Isso é caso de CPI!

Outra coisa que a enerva sobremaneira é a falta de clareza:

– “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Bloquear o quê, ou quem? Que fim levou o objeto direto? Ter notícia do quê? Cadê o complemento nominal? Um texto mal redigido pode levar a ilações, a interpretações equivocadas. Por isso eu era intransigente nas aulas de análise sintática.

Ela tampouco se conforma com a pronúncia — incorreta, a seu ver — do nome do finado esquema de pirâm..., digo, do finado banco.

— É mister que se corrija essa silabada! Se está escrito Master, sem acento, então é oxítona, como colher, mulher, qualquer. Máster, em português, é acentuada, assim como caráter, cadáver, líder.

— Mas é palavra estrangeira, D. Norma!

— Estrangeira para você, lusofalante ingrato! Meu país, minhas regras ortográficas. O STF devia seguir o exemplo do Ministério Público Federal em Minas Gerais e impor uma multa de uns R$ 130 milhões a quem pronunciasse ou escrevesse errado.

Mas à noite, no aconchego da alcova, D. Norma liga o celular, ganho do bisneto (“Não preciso disso, não vou usar essa tralha!”) e revê, em loop (palavra que abomina), a festa de noivado do ex-banqueiro. Deleita-se com as ruínas romanas, a pletora de velas, o piano suspenso, o decote do noivo (mais profundo que o da noiva). E pranteia aquela face outrora viçosa e bem tratada, agora relegada a água e sabão. Os cabelos um dia fartos e embebidos em sândalo (fantasia dela), ora reduzidos a máquina 2. E a barba... ah, a barba...

A barba de um homem é seu castelo. Mulheres mudam a cor e o corte do cabelo, lapidam a sobrancelha, reforçam o carmim da boca, o rubor da face — ao homem, resta a barba. Mulheres usam salto alto, vestido vermelho, fenda, renda, espartilho — ao homem, resta a barba. Sem ela, o banquirroto lhe parece zebra sem listra, unicórnio sem chifre, pavão depenado — não o magnata que teve os três Poderes da República na algibeira.

Então estanca uma furtiva lágrima, limpa o histórico de visualizações e, antes de dormir, vai ler uma ou duas páginas de Napoleão Mendes de Almeida e meditar sobre o Código de Ética escrito pelo escritório Barci de Moraes.

D. Norma é a única pessoa que entende os desvãos da alma humana e a regra do hífen — mas não explica pra ninguém.

 

Nenhum comentário: