quarta-feira, 4 de março de 2026

De olho nas pesquisas, Alcolumbre confirma quebra de sigilo de Lulinha, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Filho do presidente Lula passou a ser alvo da CPMI após investigados por supostos desvios citarem um possível vínculo dele com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS

O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu, ontem, manter a deliberação da CPMI do INSS que determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Aliado “ma non troppo” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, emdossou a um pedido da oposição, que havia aprovado a medida na semana passada, em sessão marcada por divergências e questionamentos da base governista. Alcolumbre rejeitou recurso apresentado por 14 deputados e senadores aliados do presidente, no qual o grupo solicitava a suspensão imediata dos efeitos da votação, sob a alegação de falhas na condução do processo.

As quebras de sigilo foram aprovadas em 26 de fevereiro, a partir de pedidos apresentados pelo relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). A votação ocorreu de maneira simbólica, sem registro nominal, o que intensificou os questionamentos posteriores. Ao abrir a deliberação, o presidente da comissão solicitou que os parlamentares contrários se manifestassem. Registrou sete votos contra os requerimentos, afirmando ter considerado apenas os membros titulares e desconsiderado suplentes. Com base nessa contagem, declarou aprovadas as quebras. Governistas, porém, sustentam que havia 14 votos contrários e que o resultado proclamado não refletiu a maioria presente.

Lulinha passou a ser alvo da comissão após investigados por supostos desvios no INSS citarem um possível vínculo dele com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. A CPMI apura irregularidades envolvendo descontos e operações financeiras ligadas ao órgão. A decisão de Alcolumbre não ocorre no vazio político. Ela se insere num contexto de fragilidade crescente do governo captado pelas pesquisas de opinião. A mais recente sondagem, da RealTime BigData, divulgada ontem, confirma um cenário de polarização e aperto para 2026.

Lula lidera os cenários de primeiro turno com cerca de 39% a 40%, mas enfrenta um adversário competitivo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que oscila entre 32% e 34%. No segundo turno, o quadro é de empate técnico: 42% para Lula, 41% para o senador do PL. O dado mais sensível, porém, não está na intenção de voto, mas na avaliação do governo: 51% desaprovam a gestão federal, enquanto 44% aprovam. Apenas 26% classificam o governo como ótimo ou bom e 46% como ruim ou péssimo. Trata-se de um descompasso perigoso: Lula mantém capital eleitoral, mas governa sob desaprovação majoritária.

As tendências por segmento social ajudam a avaliar o cenário. Lula preserva hegemonia nas faixas de renda mais baixa — chega a 44% entre eleitores que ganham até dois salários mínimos — e mantém vantagem robusta no Nordeste, onde alcança de 47% a 50%. Entre mulheres e eleitores acima de 60 anos, também lidera com margem confortável. Em contrapartida, enfrenta dificuldades entre eleitores de renda mais alta, onde há empate ou leve vantagem do adversário, e perde terreno no Sul e em parte do Centro-Oeste.

“Animal ferido”

No Sudeste, região decisiva, o cenário é de equilíbrio instável. Entre os jovens de 16 a 34 anos, há empate numérico com o bolsonarismo, sinalizando que a nova geração não é hegemonicamente lulista. Outro dado relevante é a rejeição: 47% afirmam que conhecem Lula e não votariam nele. O mesmo percentual aparece para Flávio Bolsonaro. O país segue dividido quase ao meio, com dois polos duros e pouco espaço para terceiros nomes.

É nesse ambiente que o Centrão recalcula suas posições. Alcolumbre, raposão da política, sentiu o cheiro de “animal ferido”, expressão que nos bastidores é usada para designar governantes fragilizados, que perdem capacidade de retaliação de aliados infiéis. Quando a desaprovação supera a aprovação e o segundo turno se mostra apertado, a fidelidade parlamentar se torna elástica.

A manutenção da quebra de sigilo sinaliza para a oposição que há espaço institucional para avançar sobre o entorno familiar do presidente. O governo perdeu a certeza de blindagem no Senado, que já não é garantida. A verdade é cruel: o Congresso se move conforme o vento das pesquisas.

Subjacente ao trabalho técnico da comissão, fundamental do ponto de vista jurídico, há uma disputa de narrativa. A CPMI do INSS pode se converter em palco de desgaste de imagem do governo, tanto quanto de Lula. Outras comissões no passado desempenharam papel central na corrosão da estabilidade política e sustentação eleitoral de governos. Em cenários de campanha eleitoral, fatos envolvendo parentes ganham potencial explosivo.

A eleição de 2026, segundo os dados disponíveis, será definida menos por esperança e mais por rejeição. Lula parte na frente, mas com margem estreita. Se a desaprovação persistir acima de 50% e o empate técnico no segundo turno se consolidar, o ambiente parlamentar tenderá a se tornar ainda mais volátil. Alcolumbre é um político pragmático. Não rompeu com o governo, mas também não se alinha em sua defesa.

Na incerteza eleitoral, o Centrão não tem convicções político-ideológicas, aposta em probabilidades. A decisão sobre Lulinha é um movimento no xadrez de 2026, cujo tabuleiro está muito instável.

 

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