Correio Braziliense
O maior de todos os rombos do caso do Banco
Master é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência,
irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e
seus eleitores
Existe um conto na literatura fantástica, do
tipo Jorge Luis Borges, em que "um certo homem assalta um banco e corre
para um cassino, onde joga todo o dinheiro roubado. Ao perder tudo que
conseguiu com o assalto, decide vender o patrimônio do próprio dono do banco
assaltado, com o argumento de que usará o dinheiro para salvar a
instituição". Parece confuso, mas é como ocorre na literatura fantástica.
E no Distrito Federal essa literatura fantástica parece estar virando
realidade.
O governo desviou bilhões de reais do Banco de Brasília, o BRB, um banco público e sólido, na tentativa de salvar o Banco Master, uma instituição privada, que oferecia juros de agiota, como se fosse um cassino. Como acontece com todo banco ou cassino sem credibilidade, ao perceberem os riscos, os apostadores se afastaram, e o banco-cassino, começava a dar sinais de que quebraria.
Diante do rombo na transparência que foi
imposto pelo sigilo nas investigações, até hoje não se sabe a razão que levou
àquela decisão: vontade de ajudar um amigo banqueiro ou algum outro interesse
escuso. Quando o Banco Central do Brasil impediu essa tentativa, o governo que
depredou o Banco de Brasília apresentou a proposta de vender patrimônio de seus
próprios donos, o povo do Distrito Federal, como forma de cobrir o rombo.
Parece literatura fantástica, mas há maioria na Câmara Legislativa para aprovar
a legislação que vai permitir cobrir um rombo com outro.
Mas, para conseguir os votos necessários,
comete-se mais um rombo, nas finanças públicas: aumentar os gastos para
empregar pessoas indicadas pelos deputados distritais.
Esse círculo vicioso de rombos provoca mais
outro: a vergonha que a população do Distrito Federal passa diante do resto do
Brasil. A culpa dessas sucessivas irresponsabilidades no uso do dinheiro e do
patrimônio públicos é jogada na omissão dos líderes políticos, intelectuais,
empresariais, e por ação espúria de seus deputados distritais. Essa vergonha
não é medida em bilhões de reais, mas não é menos grave do que os outros rombos
mencionados.
Para completar a fantasia tornada real, a
população do Distrito Federal pode reeleger os deputados distritais que
acobertaram os sucessivos rombos e eleger para novo cargo o responsável pelo
primeiro rombo. Parece absurdo que eles votem para esconder um rombo arrombando
mais. Também é absurda a hipótese de que, depois disso tudo, eles possam ser
reeleitos por eleitores que sabem que seus deputados distritais são
arrombadores, mesmo com a patética desculpa de que arrombam o patrimônio do
povo para dar recursos ao governo para salvar o banco arrombado pelo próprio
governo.
Como toda literatura fantástica, seu enredo
fica difícil de ser entendido. Por isso, é bom relembrar os rombos que os
brasilienses estão sofrendo: no BRB para tentar salvar o Master; no patrimônio
do Distrito Federal para salvar o Banco de Brasília; rombo na transparência
pelo sigilo imposto às investigações; nas finanças do governo do Distrito
Federal para comprar com cargos os votos dos deputados distritais; o rombo na
dignidade da população do Distrito Federal, vista como conivente com essa
sucessão de malfeitos; o rombo na democracia, ao eleger o responsável pelos
rombos e ao reeleger os deputados do arrombamento.
Cada um desses rombos tem consequências
negativas sobre as finanças e o patrimônio do povo do Distrito Federal, e o
maior de todos é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência,
irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e
seus eleitores. Nossas crianças e os jovens pagarão esses rombos com
sacrifícios nos serviços oferecidos pelo governo do Distrito Federal, mas,
sobretudo, serão afetados pelo rombo na esperança: na credibilidade do processo
de escolha de nossos dirigentes.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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