O Globo
O desmantelamento da Operação Lava Jato
reafirmou uma longa tradição da Justiça brasileira de reverter resultados de
investigações contra a corrupção. Esperemos que o mesmo não aconteça agora.
Duas medidas tomadas em dias recentes recolocaram o Supremo Tribunal Federal (STF) nos trilhos republicanos, proporcionando que o futuro possa recompor o passado recente, pleno de equívocos e abusos de poder. A decisão de manter a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro abre caminho para uma delação premiada que certamente desvendará as entranhas do maior golpe financeiro já acontecido no país. Por isso mesmo, teve uma importância não apenas simbólica. A decisão, proporcionada pelo ministro Gilmar Mendes, de levar ao plenário físico a anulação da quebra de sigilo do filho do presidente Lula, adotada monocraticamente pelo ministro Flavio Dino, transforma a ação individual de um juiz em decisão do colegiado, o que dá outro valor ao resultado.
Há um longo e pedregoso caminho pela frente
até que o STF recupere sua credibilidade, mas as medidas recentes vão de
encontro à arrogância que domina a mais alta Corte do país, mais preocupada em
demonstrar poder e em proteger os seus. Falta ainda desistir da investigação
contra o jornalista que criticou o ministro Dino. Ao assumir ser suspeito para
votar sobre a prisão do ex-banqueiro, o ministro Dias Toffoli deu uma
rebobinada na fita e confessou, embora tardiamente, sua suspeição. Sabia-se que
a manutenção da prisão de Vorcaro levaria a um caminho aparentemente sem volta
da delação premiada, por isso temia-se um “acordão” para soltá-lo.
As pressões políticas externas foram muitas,
as internas também, mas prevaleceu o bom-senso, que andava em falta ultimamente.
Também levar ao plenário a decisão sobre o sigilo bancário do filho do
presidente respaldará a decisão final, mesmo que ela confirme a do ministro
Flavio Dino. Já não será possível afirmar que a decisão tenha sido um favor ao
presidente por parte de um ministro nomeado por ele. O mínimo que se pede dos
ministros do Supremo é que cumpram os ritos processuais sem saltos carpados ou
interpretações escalafobéticas. A manutenção da prisão de Daniel Vorcaro foi o
resultado que a sociedade esperava, o contrário seria o detonador de uma crise
institucional de grandes proporções.
Há provas evidentes de que ele é perigoso, e
não pode ficar solto. Tem um esquema de persuasão violenta dos adversários, ou
de quem considera que o prejudica através de ações que ele não controla.
Acostumado a usar seu dinheiro para angariar apoios políticos , também o usava
para ameaçar o ex-marido de uma namorada, empregados domésticos ou jornalistas
como Lauro Jardim e Malu Gaspar, do GLOBO, e nem mesmo a prisão domiciliar
seria o caso. Acredito que o ministro Gilmar Mendes dará unanimidade da turma
pela manutenção da prisão.
Esta situação delicada foi superada e é um
passo do STF na direção certa. Desanuvia um pouco a tensão. Mas este processo
ainda vai durar muito tempo, porque mais provas vão aparecer, celulares
precisam ser abertos, ainda teremos novidades pela frente. A confirmação da
prisão provavelmente vai estimular o preso a fazer uma delação premiada. Ficou
claro que ele estava esperando a pressão feita especialmente pelos políticos do
centrão para soltá-lo. Assim que se formou a maioria para mantê-lo na cadeia,
trocou de advogados para contratar um dos grandes, José Luis de Oliveira Lima,
o Juca, com vasta experiência de clientes que fizeram delação premiada na
Operação Lava Jato.
Nesse ponto, teremos um processo semelhante
ao da Operação Lava-Jato, já que presumivelmente, pelo que já se sabe, são
muitos os empresários, políticos, magistrados, jornalistas pagos para criarem
ambiente favorável e criticar inimigos, todos envolvidos nessa teia trançada
por Vorcaro para fazer seus negócios escusos. Foi, aliás, o desmantelamento da
Operação Lava Jato que reafirmou uma longa tradição da Justiça brasileira de
reverter resultados de investigações contra a corrupção. Esperemos que o mesmo
não aconteça agora.

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