domingo, 15 de março de 2026

Moraes cria o precedente, por Elio Gaspari

O Globo

Autorização concedida pelo ministro para busca e apreensão contra jornalista tende a ameaçar direito de preservar fontes

O ministro Alexandre de Moraes é experiente. Ele determinou uma operação de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida. O ministro autorizou a apreensão de celulares, computadores, tablets, documentos e outros dispositivos eletrônicos que possam auxiliar numa investigação sigilosa.

Investigação de que? De um eventual uso indevido de um carro oficial pelo ministro Flávio Dino. Fica combinado assim.

Ex-procurador e ex-secretário de Segurança de São Paulo, Moraes pode estar golpeando o direito de todos os jornalistas de preservar a identidade de suas fontes. Nesses equipamentos quase todos os jornalistas guardam documentos, transcrições de conversas e até mesmo pistas para eventuais reportagens. São acervos que, em alguns casos, armazenam mais informações que um mês de grampos.

À primeira vista, o caso envolve um jornalista maranhense, que escreveu contra Flávio Dino, seu colega de Supremo. Seria um caso despiciendo.

À segunda vista, mesmo que essa não fosse sua intenção, atacou o exercício da profissão de todos os jornalistas. Atento aos avanços da tecnologia, Moraes quer apreender até mesmo dados guardados em serviços de armazenamento em nuvem.

Moraes cria um precedente: busca nos equipamentos de Luís Pablo Conceição Almeida a história de um carro oficial que teria sido usado por Flávio Dino. A pontaria desse tiro pode ir mais longe.

A renúncia de Cláudio Castro

Se o governador do Rio, Cláudio Castro, renunciar para tentar preservar sua elegibilidade, o tempo terá mostrado o preço da eleição de Wilson Witzel, na onda antipetista de 2018 e da reeleição de Castro. Witzel teve trabalho para conseguir um vice e contentou-se com Cláudio Castro.

Deposto em 2020, entregou o cargo a Castro, que viria a se reeleger em 2022, com quase 60% dos votos.

Os mimos de Vorcaro

O banqueiro Daniel Vorcaro tinha um gosto pelo espetáculo e um agudo sentido de oportunidade. Em setembro de 2023, quando ele começou a brilhar no mercado, torrou R$ 363 milhões com uma festa em Taormina, na Itália.

Em dezembro Vorcaro lançou o nome do ministro Alexandre de Moraes em sua agenda. Meses depois o Master contratou a banca Barci de Moraes, da mulher e dos filhos do ministro. A essa época o Banco Central começava a prestar atenção nos números do Master.

Em abril, Vorcaro co-patrocinou uma farofa em Londres enfeitada, entre outros, por Moraes e Dias Toffoli. Num ágape lateral, bancou um “serviço de degustação Macallan no George Club” que lhe custou R$ 3,3 milhões.

Em setembro de 2024, a Polícia Federal passou a investigar o Master. Em novembro o Banco Central deu seis meses para que o Master acertasse suas contas.

Em dezembro, Vorcaro conseguiu que o ex-ministro Guido Mantega lhe abrisse a porta do gabinete de Lula.

Não adiantou, em novembro de 2025, depois de vários ultimatos, o Banco Central liquidou o Master.

Lula SuperStar

Na semana passada Lula não foi à posse do novo presidente do Chile, o direitista José Antonio Kast, que havia convidado Flávio Bolsonaro para a cerimônia.

Tudo bem, Lula Superstar telefonou para o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, e para Claudia Sheinbaum, do México, porque Donald Trump quer classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, coisa que não são. Alta diplomacia.

Lula poderia ter ligado também para o prefeito Eduardo Paes. A polícia Federal acabava de prender o vereador Salvino Oliveira (PSD), seu ex- secretário da Juventude. O doutor é acusado de uma conexão eleitoral com o traficante Edgar Alves de Andrade, do Doca, um dos chefes do Comando Vermelho no Rio. Em tese, Paes é um aliado de Lula.

Outro assunto interessante para a conversa com Paes seria a prisão de 15 PMs do Rio que integravam a equipe de segurança do bicheiro Rogério Andrade.

Em outubro, Lula terá o voto dos colombianos e mexicanos preocupados com a segurança pública.

Os votos do Rio

Quem conhece a política do Rio teme que, na reta final da campanha, Eduardo Paes se afaste de Lula, aproximando-se de Flávio Bolsonaro.

A fonte da fortuna

Enquanto a revista Forbes colocava o brasileiro Eduardo Saverin no topo da lista de bilionários brasileiros, com US$ 35,9 bilhões, soube-se que Mark Zuckerberg está de olho numa casa de US$ 170 milhões.

Ela fica em Miami tem nove suítes, 11 banheiros e quatro lavabos em 7,3 mil metros quadrados de terreno.

A casa ainda está em obras. Em dezembro passado, o dono da casa pedia US$ 200 milhões.

Em 2004, Saverin era um colega de turma de Zuckerberg em Harvard e acreditou na ideia de criar o Facebook (atual Meta). De lá para cá, os dois administraram seus patrimônios com rara competência. Desde 2009, ele vive em Singapura.

Vagas no STF

Pelo calendário gregoriano, o próximo presidente da República nomeará pelo menos três novos ministros para o Supremo Tribunal. A aposentadoria dos ministros do STF é compulsória ao completar 75 anos, conforme a “PEC da Bengala” (2015). A próxima vaga principal é de Luiz Fux (2028), seguida por Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (2030).

Se a bandeira do impedimento de algum ministro prosperar, as vagas serão quatro ou cinco.

Rendição incondicional

Nenhum americano chegou à Casa Branca com um grau de ignorância da História dos Estados Unidos comparável à de Donald Trump, quando ele disse que os ataques ao Irã continuarão até que seu governo ofereça uma “rendição incondicional”.

Ele ouviu o galo cantar, mas não sabia onde. Não há registro desse tipo de rendição sem ocupação territorial. Trump gostou da expressão e apropriou-se dela. Rendições incondicionais ocorreram em 1945 com a Alemanha e o Japão, que nem incondicional foi, pois o imperador Hirohito continuou no trono.

A expressão popularizou o general Ulysses S. Grant, comandante das tropas do Norte durante a Guerra Civil. Em 1862 ao atacar o forte Donelsen, ele exigiu uma “rendição incondidional e imediata”. Essa foi a primeira grande vitória do Norte e fez 12 mil prisioneiros. Grant, um sujeito que havia fracassado em tudo na vida, passou a ser conhecido como Unconditional Surrender Grant.

Acabou na Casa Branca e fez um governo desastroso.

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