Correio Braziliense
O governador gaúcho adota um discurso crítico
em relação à polarização. Afirma que pretende apontar inconsistências nos
legados de Lula e Bolsonaro
O governador gaúcho Eduardo Leite intensificou sua interlocução com setores da sociedade, como o movimento Livres da Polarização, encabeçado pelo sociólogo Augusto de Franco, que articula um manifesto em seu apoio, e na mídia, com o objetivo de viabilizar sua candidatura à Presidência no PSD de fora para dentro. Corre contra o relógio, para aproveitar um momento de inflexão da disputa presidencial, em que as pesquisas revelam uma mudança qualitativa no equilíbrio entre governo e oposição.
O levantamento AtlasIntel/Bloomberg,
divulgado ontem, mostra que Luiz Inácio Lula da Silva aparece tecnicamente
empatado com Flávio Bolsonaro no segundo turno, com 46,6% contra 47,6%,
respectivamente, dentro da margem de erro de um ponto percentual. Esse dado
ganha maior dimensão quando combinado com outros indicadores: 53,5% desaprovam
o governo Lula, contra 45,9% que o aprovam, e 49,8% avaliam sua gestão como
ruim ou péssima.
Trata-se de um quadro típico de “desgaste de
material” às vésperas de uma eleição. Ao mesmo tempo, há uma inversão simbólica
importante: 47% dos entrevistados afirmam confiar mais em Flávio Bolsonaro para
administrar áreas-chave do governo, enquanto Lula registra 45%. Ou seja, começa
a perder não apenas intenção de voto, mas atributos de confiança que sempre
foram seu principal ativo eleitoral.
Esse ambiente de maior vulnerabilidade do
governo e de ascensão da oposição cria uma janela política que Eduardo Leite
tenta explorar. Sua aposta é ocupar o espaço de centro diante de uma
polarização que mostra sinais de desgaste junto a setores da classe média e do
empresariado. Em declarações recentes, o governador gaúcho afirmou que “o PSD
precisa ser, nesta eleição, o centro que está faltando”, “posicionado” com
firmeza em temas como segurança pública e ajuste fiscal combinados à defesa de
políticas sociais. Leite também avisou que só deixará o governo do Rio Grande
do Sul para disputar a Presidência como cabeça de chapa, descartando qualquer
composição para ser vice ou candidato ao Senado (a conferir).
Essa estratégia tem dois alvos simultâneos. O
primeiro é o eleitorado, que Leite tenta convencer de que existe uma
alternativa viável à polarização. O segundo é o próprio PSD, partido comandado
por Gilberto Kassab, que ainda não definiu seu candidato. Ao dizer que Ronaldo
Caiado busca um espaço ocupado, pois “já tem representante na direita”, o
governador gaúcho procura desqualificar a candidatura do adversário interno,
enquadrando-a como redundante diante da força do bolsonarismo.
A mensagem é direta: lançar Caiado seria
disputar um eleitor já capturado por Flávio Bolsonaro, enquanto apostar em uma
candidatura de centro poderia abrir um novo campo de votos. A disputa interna
no PSD se dá num contexto de perplexidade da legenda. A desistência de Ratinho
Júnior do processo interno evidenciou a dificuldade de consolidação de uma
candidatura competitiva fora dos polos.
Centro imaginário
Tanto Caiado quanto Leite aparecem hoje com
apenas 3% a 4% das intenções de voto, muito distantes dos líderes da corrida.
Esse dado revela que, embora haja desgaste de Lula, isso não se traduz
automaticamente no fortalecimento do centro, mas, sim, na reorganização da
oposição em torno de um nome mais competitivo. É justamente contra esse
movimento que Leite tenta se posicionar.
Sua estratégia de viabilização “de fora para
dentro” consiste em usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o
partido e criar uma percepção de viabilidade eleitoral que force o PSD a
adotá-lo como candidato. Simultaneamente, Leite busca o apoio de sua antiga
legenda, o PSDB, mais em direção aos segmentos sociais e personalidades que a
legenda já representou, como os ligados ao ex-governador capixaba Paulo
Hartung, hoje no PSD, do que em relação às lideranças tradicionais que
permaneceram na legenda, como os ex-governadores Aécio Neves (MG) e Marconi
Perillo (GO).
Isso é uma inversão da lógica tradicional, na
qual o partido define o nome e depois o apresenta ao eleitorado. O governador
gaúcho aposta no caminho inverso: primeiro conquistar espaço no debate público,
depois consolidar apoio interno. Mas o tempo é curto. Leite também adota um
discurso crítico em relação aos dois polos. Afirma que pretende apontar
inconsistências nos legados de Lula e Bolsonaro, defende que autoridades —
presidentes ou ministros do Supremo — que tenham cometido irregularidades sejam
investigadas e punidas. Ou seja, tenta construir uma imagem de equilíbrio e
firmeza institucional, atributos que julga capazes de atrair eleitores
moderados, e agarrar com as duas mãos a bandeira da ética na política.
Sua estratégia depende de condições políticas
difíceis de se materializar. Os mesmos dados que mostram o enfraquecimento de
Lula também indicam a consolidação da polarização. A ascensão de Flávio
Bolsonaro sugere que o eleitorado de direita não está migrando para
alternativas moderadas, mas se concentra em torno de um candidato competitivo
claramente de direita. Do lado da esquerda, apesar do desgaste, Lula mantém seu
histórico e significativo núcleo de apoio, especialmente em regiões como o
Nordeste, o que dificulta a emergência de uma terceira força. A aposta de Leite
de alto risco: ocupar um espaço político que existe mais como potencial do que
como realidade concreta, imaginável por causa da rejeição de Lula e de Flávio
Bolsonaro.

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