quinta-feira, 26 de março de 2026

A Polarização Afetiva asfixia o Centro, por César Felício

Valor Econômico

Crescimento dos extremismos, contudo, não significa que a eleição presidencial deste ano está resolvida

É bastante provável que o Brasil fique sem candidatos a presidente da República do espectro de centro pela primeira vez desde o início da história das eleições democráticas, o que inclui a Nova República (1985-) e o período entre 1945 e 1964.

Não se trata da ausência de candidatos competitivos, mas da ausência pura e simples de candidatos com este perfil, caso o governador Eduardo Leite (PSD) seja de fato alijado do processo, como tudo indica que será.

O quadro mais factível é o que contrapõe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma aliança exclusivamente de partidos de esquerda e o apoio periférico de algumas lideranças de centro, contra cinco candidaturas de direita , de menor a maior grau: Flavio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Aldo Rebelo (DC).

Os políticos de centro pouco a pouco se acomodam a uma tendência crescente no Brasil, a da polarização afetiva, delimitada com clareza em um estudo de 2025 conduzido pelo Monitor do Debate Político da USP, coordenado pelo cientista político Pablo Ortellado, em parceria com a ONG More in Common.

Polarização Afetiva é um conceito desenvolvido para explicar a radicalização do eleitorado nos Estados Unidos e que ganha corpo como hipótese no Brasil. À medida que este processo se desenvolve, o centro vai ficando isolado, falando sozinho. Ortellado explica que a polarização afetiva se desenvolve em duas camadas.

A primeira é a da homogenização e o alinhamento dos partidários das correntes políticos. Ou seja, os polos vão ficando com cada vez menos nuances. Religiosos praticantes de um lado, intelectuais laicos do outro, ricos de um lado, pobres do outro, homens de um lado, mulheres do outro, de maneira a que cada polo encarne uma persona. A segunda camada é do espelhamento. Cada campo projeta no adversário a negação daquilo que considera sua essência. Quanto mais forte e alinhadas as identidades, maior a hostilidade com o grupo oposto.

Em um mundo pautado pelo que vê na tela do celular, o espelhamento se exacerba. Como escreveu o deputado André Janones (Avante-MG) nesta quinta-feira mesmo no “X”, “o amor não venceu porra nenhuma, o que move a rede é ódio, pra cima deles!”. Esse é o espírito: é o ódio que move, muito mais que a defesa de bandeiras ideológicas.

“Essa dinâmica é preocupante para a democracia, porque fomenta a intolerância”, comentou Pablo Ortellado. No estudo coordenado por ele, a intolerância foi medida em uma pesquisa com 2 mil eleitores da cidade de São Paulo, com entrevistas no ano passado. Cerca de um em cada cinco eleitores (22%) é potencialmente intolerante.

Esse contingente são os de eleitores com identidades muito demarcadas. 17% deles são simultaneamente conservadores, de direita e bolsonaristas.

Outros 5% são ao mesmo tempo progressistas, petistas e de esquerda.

O estudo conseguiu determinar que, quanto mais fixada for a identidade de uma pessoa com um campo, mais ela rejeita o campo oposto.

Foi pedido a esses grupos que atribuíssem uma nota ao grupo adversário de zero a 10. Metade atribuiu aos integrantes do outro polo a nota 1. No universo das intolerância, o ódio não é apenas aos dirigentes políticos, mas ao eleitor da ala adversária.

O espelho de cada uma dessas fatias é o seguinte: eleitores simultaneamente de direita, conservadores e bolsonaristas se veem como a favor da família, da ordem e dos valores tradicionais. Acreditam serem pessoas de bem, corretas, que são contra a corrupção e os bandidos. Combatem o assistencialismo, defendem a livre iniciativa e, finalmente, apoiam Bolsonaro.

Essas pessoas de direita, bolsonaristas e conservadores veem os petistas, esquerdistas e progressistas como sendo contrárias à família, à tradição e à ordem. Favoráveis aos corruptos, aos bandidos. Por fim como apoiadoras do Lula e dependentes do Estado ou defensoras do assistencialismo.

Já os eleitores de esquerda, progressistas e petistas se veem como defensoras dos trabalhadores, dos mais pobres e dos injustiçados. Se dizem a favor dos direitos humanos e das prerrogativas das mulheres, dos negros, e da população LGBT. Afirmam serem a favor da democracia e, por fim, apoiadoras de Lula.

Sem surpresas, veem o polo oposto como defensor dos ricos, e indiferentes às desigualdades sociais, contrários aos direitos humanos, das mulheres, dos negros e da população LGBT.

Um dado curioso é que há um consenso entre os dois polos que se detestam. Tanto quem está à esquerda como quem está à direita acredita que o outro polo é extremista, autoritário, golpista ou contrário à democracia.

Em um ambiente de polarização afetiva crescente , é razoável acreditar que os extremistas de um polo e de outro estão certos neste ponto. Se o repúdio deixa de ser direcionado às bandeiras ideológicas de uma corrente e a seus dirigentes para se voltar aos eleitores, a hegemonia de um polo passa a ser uma ameaça existencial ao outro.

Dito isso, cabe uma ressalva sobre o que a polarização afetiva crescente significa em termos de prognóstico eleitoral para este ano. A maior parte o eleitorado brasileiro, obviamente, está fora dos extremos da direita e da esquerda. As eleições municipais de 2024 mostraram força dos incumbentes que se situam no Centro e o quadro da disputa dos governos estaduais é bem menos radicalizado do que o da sucessão presidencial.

Mesmo em relação à disputa nacional, o movimento político do PSD em construir uma terceira via, mesmo que à direita, em insubordinação ao bolsonarismo, não pode ser negligenciado. O PSD hoje é mais forte do que somados eram o MDB e o PSDB que lançaram Simone Tebet e o PDT que foi de Ciro Gomes em 2022. “A campanha ainda não começou e a evolução dos candidatos está em aberto, não se podendo descartar movimentos ao centro”, comenta o cientista político Antônio Lavareda, recordando uma frase de Shakespeare: “Nunca chame de impossível o que apenas improvável lhe parece”.

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