Valor Econômico
Crescimento dos extremismos, contudo, não
significa que a eleição presidencial deste ano está resolvida
É bastante provável que o Brasil fique sem
candidatos a presidente da República do espectro de centro pela primeira vez
desde o início da história das eleições democráticas, o que inclui a Nova
República (1985-) e o período entre 1945 e 1964.
Não se trata da ausência de candidatos competitivos, mas da ausência pura e simples de candidatos com este perfil, caso o governador Eduardo Leite (PSD) seja de fato alijado do processo, como tudo indica que será.
O quadro mais factível é o que contrapõe o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma aliança exclusivamente de partidos
de esquerda e o apoio periférico de algumas lideranças de centro, contra cinco
candidaturas de direita , de menor a maior grau: Flavio Bolsonaro (PL), Ronaldo
Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Aldo Rebelo (DC).
Os políticos de centro pouco a pouco se
acomodam a uma tendência crescente no Brasil, a da polarização afetiva,
delimitada com clareza em um estudo de 2025 conduzido pelo Monitor do Debate
Político da USP, coordenado pelo cientista político Pablo Ortellado, em
parceria com a ONG More in Common.
Polarização Afetiva é um conceito
desenvolvido para explicar a radicalização do eleitorado nos Estados Unidos e
que ganha corpo como hipótese no Brasil. À medida que este processo se
desenvolve, o centro vai ficando isolado, falando sozinho. Ortellado explica
que a polarização afetiva se desenvolve em duas camadas.
A primeira é a da homogenização e o
alinhamento dos partidários das correntes políticos. Ou seja, os polos vão
ficando com cada vez menos nuances. Religiosos praticantes de um lado,
intelectuais laicos do outro, ricos de um lado, pobres do outro, homens de um
lado, mulheres do outro, de maneira a que cada polo encarne uma persona. A
segunda camada é do espelhamento. Cada campo projeta no adversário a negação
daquilo que considera sua essência. Quanto mais forte e alinhadas as
identidades, maior a hostilidade com o grupo oposto.
Em um mundo pautado pelo que vê na tela do
celular, o espelhamento se exacerba. Como escreveu o deputado André Janones
(Avante-MG) nesta quinta-feira mesmo no “X”, “o amor não venceu porra nenhuma,
o que move a rede é ódio, pra cima deles!”. Esse é o espírito: é o ódio que
move, muito mais que a defesa de bandeiras ideológicas.
“Essa dinâmica é preocupante para a
democracia, porque fomenta a intolerância”, comentou Pablo Ortellado. No estudo
coordenado por ele, a intolerância foi medida em uma pesquisa com 2 mil
eleitores da cidade de São Paulo, com entrevistas no ano passado. Cerca de um
em cada cinco eleitores (22%) é potencialmente intolerante.
Esse contingente são os de eleitores com
identidades muito demarcadas. 17% deles são simultaneamente conservadores, de
direita e bolsonaristas.
Outros 5% são ao mesmo tempo progressistas,
petistas e de esquerda.
O estudo conseguiu determinar que, quanto
mais fixada for a identidade de uma pessoa com um campo, mais ela rejeita o
campo oposto.
Foi pedido a esses grupos que atribuíssem uma
nota ao grupo adversário de zero a 10. Metade atribuiu aos integrantes do outro
polo a nota 1. No universo das intolerância, o ódio não é apenas aos dirigentes
políticos, mas ao eleitor da ala adversária.
O espelho de cada uma dessas fatias é o
seguinte: eleitores simultaneamente de direita, conservadores e bolsonaristas
se veem como a favor da família, da ordem e dos valores tradicionais. Acreditam
serem pessoas de bem, corretas, que são contra a corrupção e os bandidos.
Combatem o assistencialismo, defendem a livre iniciativa e, finalmente, apoiam
Bolsonaro.
Essas pessoas de direita, bolsonaristas e
conservadores veem os petistas, esquerdistas e progressistas como sendo
contrárias à família, à tradição e à ordem. Favoráveis aos corruptos, aos
bandidos. Por fim como apoiadoras do Lula e dependentes do Estado ou defensoras
do assistencialismo.
Já os eleitores de esquerda, progressistas e
petistas se veem como defensoras dos trabalhadores, dos mais pobres e dos
injustiçados. Se dizem a favor dos direitos humanos e das prerrogativas das
mulheres, dos negros, e da população LGBT. Afirmam serem a favor da democracia
e, por fim, apoiadoras de Lula.
Sem surpresas, veem o polo oposto como
defensor dos ricos, e indiferentes às desigualdades sociais, contrários aos
direitos humanos, das mulheres, dos negros e da população LGBT.
Um dado curioso é que há um consenso entre os
dois polos que se detestam. Tanto quem está à esquerda como quem está à direita
acredita que o outro polo é extremista, autoritário, golpista ou contrário à
democracia.
Em um ambiente de polarização afetiva
crescente , é razoável acreditar que os extremistas de um polo e de outro estão
certos neste ponto. Se o repúdio deixa de ser direcionado às bandeiras
ideológicas de uma corrente e a seus dirigentes para se voltar aos eleitores, a
hegemonia de um polo passa a ser uma ameaça existencial ao outro.
Dito isso, cabe uma ressalva sobre o que a
polarização afetiva crescente significa em termos de prognóstico eleitoral para
este ano. A maior parte o eleitorado brasileiro, obviamente, está fora dos
extremos da direita e da esquerda. As eleições municipais de 2024 mostraram
força dos incumbentes que se situam no Centro e o quadro da disputa dos
governos estaduais é bem menos radicalizado do que o da sucessão presidencial.
Mesmo em relação à disputa nacional, o movimento político do PSD em construir uma terceira via, mesmo que à direita, em insubordinação ao bolsonarismo, não pode ser negligenciado. O PSD hoje é mais forte do que somados eram o MDB e o PSDB que lançaram Simone Tebet e o PDT que foi de Ciro Gomes em 2022. “A campanha ainda não começou e a evolução dos candidatos está em aberto, não se podendo descartar movimentos ao centro”, comenta o cientista político Antônio Lavareda, recordando uma frase de Shakespeare: “Nunca chame de impossível o que apenas improvável lhe parece”.

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