sexta-feira, 20 de março de 2026

Eleição Presidencial: decisão no primeiro turno? Por André Régis*

Folha de Pernambuco

Diante da leitura das últimas pesquisas, no contexto dos escândalos do INSS e do Banco Master, a eleição presidencial de 2026 já admite uma hipótese antes remota: desfecho no primeiro turno. Todas indicam erosão do favoritismo de Lula e mostram que a direita passou a ter incentivos claros para trocar dispersão por coordenação. Nelas, o centro volta a dar sinais de inclinação à direita, enquanto Flávio Bolsonaro busca ampliar sua aceitação com gestos nessa direção.

A cautela histórica continua necessária. Desde a redemocratização, apenas Fernando Henrique Cardoso venceu a Presidência no primeiro turno, em 1994 e 1998. Basta esse registro como advertência: trata-se de desfecho raro, que exige condições políticas muito específicas.

O primeiro ponto exige precisão. Não é correto afirmar que os candidatos da direita superam Lula em todos os cenários testados. Mas é correto dizer que, quando se agregam Flávio Bolsonaro, Ratinho Junior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, aparece uma maioria potencial anti-Lula.

Na Paraná Pesquisas de fevereiro, Lula tem 39,6% no cenário 1, enquanto Flávio, Ratinho e Zema somam 46,7%; no cenário 2, Lula marca 40,5%, e Flávio, Zema e Caiado chegam a 44,6%. Na RealTime Big Data de março, o mesmo padrão reaparece: 43% a 39% no cenário com Ratinho e 41% a 40% no cenário com Caiado. O ponto decisivo, portanto, não é a soma mecânica, mas o sinal político: existe um campo oposicionista que pode deixar de ser apenas aritmético para se tornar força eleitoral efetiva.

Isso muda a natureza da corrida. O problema de Lula hoje não é apenas estar abaixo de 50%. É ver o principal adversário crescer num ambiente em que candidaturas vizinhas podem deixar de funcionar como dispersão e passar a operar como reserva de voto útil. A série da Paraná ilustra esse movimento: Flávio sobe de 19,2% em outubro de 2025 para 35,3% em fevereiro de 2026, enquanto Lula vai de 37,6% para 39,6%. No eventual segundo turno, Flávio já aparece numericamente à frente, com 44,4%, contra 43,8% de Lula.

Existem ainda elementos qualitativos novos que reforçam a hipótese de competitividade de Flávio: na Quaest de março, 43% dizem ter mais medo de Lula continuar, enquanto 42% afirmam temer mais a volta da família Bolsonaro. Na mesma rodada, a desaprovação geral de Lula chega a 51%, contra 44% de aprovação; e, entre as mulheres, 48% desaprovam o governo e 46% aprovam.

Isso não significa que Flávio tenha atravessado ileso o teste eleitoral. Significa que ele entra na disputa com um passivo emocional menor do que o esperado. A própria Quaest mostra um quadro mais ambivalente do que caricatural: 38% o veem como mais moderado do que sua família, 48% discordam, e 14% não sabem; além disso, 47% dizem que Jair Bolsonaro acertou ao indicá-lo candidato, contra 39% que consideram ter sido um erro. Não é cenário de hegemonia, mas tampouco de rejeição incapacitante. É justamente esse tipo de configuração que pode levar o centro a pender novamente para a direita, sobretudo quando percebe moderação relativa de um lado e desgaste crescente do outro.

É aqui que entra o voto útil antipetista. Em eleições polarizadas, quando um campo passa a enxergar chance real de vitória, o eleitor deixa de perguntar apenas quem melhor o representa e passa a perguntar quem pode ganhar. Foi o que ocorreu em 2018, quando a ascensão de Jair Bolsonaro reduziu o espaço de candidaturas que pareciam mais sólidas no papel, como Geraldo Alckmin, e esvaziou apostas de perfil liberal, como João Amoêdo. O mecanismo pode voltar a operar em 2026, caso a direita consolide a percepção de que dispõe de um polo viável e siga emitindo sinais de acomodação ao centro.

A desaprovação de Lula reforça esse incentivo. Na Quaest de março, além dos 51% de desaprovação, 43% avaliam o governo negativamente e apenas 31% o avaliam positivamente. No mesmo levantamento, 48% dizem que a economia piorou nos últimos 12 meses.

Se esse quadro persistir, o efeito sobre Ratinho, Caiado e Zema tende a ser direto. Todos passam a enfrentar o dilema clássico dos sistemas polarizados: insistir até o fim, correndo o risco de serem vistos como auxiliares involuntários da sobrevivência do adversário, ou negociar lugar num arranjo mais amplo. Nesse contexto, uma composição já no primeiro turno, inclusive com vice oriundo do PSD ou do Novo, deixa de parecer extravagante e passa a ser inferência racional.

A própria engenharia partidária empurra nessa direção. Pela regra de transição da Emenda Constitucional 97, nas eleições de 2026 o partido ou federação precisará, para acessar fundo partidário e propaganda, alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com mínimo de 1,5% em cada uma, ou eleger 13 deputados federais, também distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação. A cláusula de desempenho, somada à formação de federações partidárias, elevou o custo das aventuras presidenciais e empurrou mais partidos para uma lógica de sobrevivência institucional.

Isso ajuda a compreender o comportamento provável das siglas médias. O PSB parece ter mais incentivos para permanecer novamente na vice de Lula do que para ensaiar protagonismo próprio. Já PSDB, MDB e PDT buscam sobretudo sobreviver e, na prática, já abandonaram pretensões presidenciais mais elevadas. No centro do tabuleiro, o chamado centrão continua estruturado para entrar em qualquer governo vencedor, desde que preserve poder orçamentário, musculatura parlamentar e capacidade de negociação. Essa lógica reduz ainda mais o espaço para candidaturas intermediárias competitivas.

Há, porém, um fator relevante a ser considerado: Flávio ainda não foi submetido ao principal esforço de desconstrução petista. Se, mais adiante, sua candidatura sofrer queda relevante sob ataque concentrado, a hipótese de primeiro turno não desaparece; ela pode apenas mudar de lado, desde que haja recuperação da imagem de Lula.

A conclusão, por isso, precisa ser calibrada. O peso ainda relevante dos indecisos e dos eleitores não consolidados impede tratar o primeiro turno como desfecho em marcha. Se houver decisão no primeiro turno, ela dificilmente decorrerá de uma consagração automática de Lula. Fará mais sentido, no quadro atual, como produto da consolidação de uma candidatura da direita capaz de converter maioria potencial em concentração efetiva, voto difuso em voto útil e convergência partidária em coordenação estratégica. A tendência que hoje ganha plausibilidade é essa: a de uma oposição suficientemente coordenada para encurtar a disputa.

Mas a hipótese contrária também precisa permanecer aberta. Se Flávio for alvejado mortalmente mais adiante, os demais pré-candidatos da direita provavelmente já estarão fora da disputa pela dinâmica hoje em curso. Nesse caso, um novo arranjo poderá, sim, abrir caminho para uma vitória de Lula no primeiro turno. Previsões eleitorais, porém, sempre convivem com o imponderável. E, neste momento, o imponderável atende pelo sobrenome Vorcaro.

*André Régis, Ph.D. em Ciência Política pela NSSR – New York. Professor da UFPE.

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