sexta-feira, 20 de março de 2026

Em alta, endividamento, inadimplência e recuperação, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

Mesmo vindo a redução de juros, é preciso resolver a falta de educação financeira, que é estrutural e de difícil solução no curto prazo

Nos últimos dias, os jornais publicaram notícias sobre esses temas. E notícias fortes, como a de que o endividamento das famílias bateu recorde em fevereiro, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Em números, 80,2% das famílias entrevistadas declararam possuir alguma dívida, e esse é o maior nível de endividamento da série histórica mensal, que começou em 2010. A pesquisa revelou também que a inadimplência é alta, com 29,6% das famílias declarando ter dívidas em atraso e 12,6% delas dizendo não ter condições de pagar as dívidas vencidas. Por que, então, as tomaram?

Ao site IstoÉDinheiro, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, declarou que a piora é resultado dos juros em níveis elevados, mas quanto aos altos níveis que vêm do passado ele não comentou as razões. Eu estou dizendo que são altos por minha própria opinião, mas, para ser mais preciso, seria necessário dispor de comparações internacionais, o que não é o caso.

As principais modalidades de dívida são interessantes, e o cartão de crédito é citado por 85% das famílias. Em seguida vêm carnês de lojas ( 1 6 %) , crédito pessoal (12,3%), financiamento de casa (9,8%) e financiamento de carro (9,8%).

Há dívidas boas e dívidas más. O financiamento de casa é claramente bom; o de carro é um pouco menos, pois depende de sua necessidade e do preço. Nos demais casos, a pesquisa não indica o uso do dinheiro e futuras pesquisas sobre o tema poderiam elucidar o assunto.

O que se sabe é que os brasileiros em geral têm baixa educação financeira, em particular com relação aos juros que pagam e que não conseguem avaliar, como nos carnês de lojas. Eles refletem mais sobre os seus desejos, influenciados pelo que veem na TV, que quase todo mundo tem. Falar em poupança é algo largamente ignorado. Prevalece o desejo, sem ponderar outras considerações quanto à dívida, como a efetiva necessidade da compra, a taxa de juros, a necessidade de poupar, e por aí vai.

Calculadoras portáteis que calculam juros, em geral, são caras e de difícil manuseio. Por isso tenho recomendado as calculadoras do cidadão, do Banco Central. Geralmente, cada uma envolve quatro variáveis e, entrando com três, sai o resultado da quarta. Por exemplo: valor do financiamento, prazo em meses, valor da prestação e taxa de juros. Elas estão disponíveis em https://www.bcb.gov.br/meu bc/calculadoradocidadao.

Um caso em que a alta dos juros teve claramente um maior impacto foi nos pedidos de recuperação judicial de empresas, que aumentaram muito com a Selic em 15% ao ano desde junho do ano passado, após sucessivos aumentos. No noticiário, ganharam destaque os pedidos da empresa Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, que ocorreram no início de março. No caso da Raízen, vi que a recuperação extrajudicial visa a reorganizar cerca de R$ 65,1 bilhões (!) em dívidas financeiras quirografárias (obrigações sem garantia real). Matéria deste jornal no domingo passado veio com o título Juros, gestão e governança ruins levam mais empresas à recuperação, mas dando maior destaque aos juros, conforme este trecho da reportagem: “Empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida”. Há, também, o caso do Banco Master, que atraiu muita atenção – e tudo indica que está ligado a um problema de gestão. O Banco Central suspendeu o seu funcionamento, seu presidente foi preso e muita coisa deve rolar pela frente antes de esclarecer o que realmente aconteceu.

E, no que se refere à Justiça do Trabalho, veio este título em matéria deste jornal de 16/3: Empresas gastam recorde de mais de R$ 50 bi em ações trabalhistas em 2025, mostrando que essas ações ressurgiram depois de uma reforma que houve no passado, quando caíram muito. “Foram 2,3 milhões de novos processos nas varas do trabalho em 2025 – um aumento de 8,7% em relação ao ano anterior (2,1 milhões)” e “o pico de processos ocorreu em 2016, quando 2,76 milhões de novas ações foram apresentadas. Após a reforma trabalhista – aprovada em 2017, no governo Temer –, a judicialização caiu”, esclareceu o jornal.

Olhando à frente, as perspectivas não são boas, porque a redução de juros virá devagar e depende de fatores imponderáveis, como a política fiscal do governo Lula em ano eleitoral. Mas, mesmo vindo a redução de juros, nos casos do endividamento e da inadimplência das famílias há a questão da falta de educação financeira, que é estrutural e de difícil solução no curto prazo. O Ministério da Educação poderia difundi-la no sistema de ensino, mas há a necessidade de levá-la à população em geral, inclusive a idosos – e confesso não saber como fazer isso. O Banco Central também poderia atuar neste esforço, contando com a colaboração do sistema bancário.

Também é difícil despertar o poder político para desenvolver políticas desse tipo, porque não é um tema pelo qual a Presidência da República e o Congresso Nacional demonstrem maior interesse.


 

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