O Globo
A missão democrática hoje é sustentar que
apesar dos muitos erros da Corte, as condenações dos golpistas foi justa e
precisa ser mantida
A crise gerada pelo envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com Daniel Vorcaro pode comprometer o pouco apoio público que resta ao Supremo, lançando o país em crise institucional grave. Num futuro não distante, isso poderia levar à revisão das punições às mobilizações antidemocráticas, produzindo impunidade, fragilidade democrática e a liberação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Esse cenário é compartilhado por diferentes
atores políticos. À direita, a leitura leva ao apoio entusiasmado às
investigações sobre o Banco Master, mesmo sabendo que aliados históricos do
bolsonarismo sairão feridos. À esquerda, a uma mistura de cautela com
diferentes estratégias para minimizar os impactos.
Reportagem de Malu Gaspar, no GLOBO, mostrou
que Lula articula
a aposentadoria de Dias
Toffoli que espera saciar o apetite público por justiça. O impacto da
crise ficaria circunscrito, preservando o ministro Alexandre
de Moraes, que investigou e julgou as mobilizações antidemocráticas.
Somam-se a isso todas as movimentações de
autoproteção em curso. No Congresso, o envolvimento das principais lideranças
do Centrão com Vorcaro torna improvável uma CPI do Banco Master. No Supremo, o
espírito de proteção institucional tem levado o ministro Gilmar Mendes a
bloquear todas as tentativas de acesso a dados pela CPI do Crime Organizado.
Porém o tamanho das revelações já não permite
controlar inteiramente a crise — apenas postergar seu desfecho. Toffoli não
conseguiu segurar as investigações como relator, e não há razão para crer que
Lula controlaria a atuação da Polícia Federal. As ações de contenção
disponíveis aprofundariam a crise, não a resolveriam.
Se Toffoli e Moraes estiverem mesmo
implicados, seremos obrigados a assistir aos bolsonaristas empurrarem a revisão
das condenações dos acusados de golpe de Estado, senão juridicamente, pelo
menos junto à opinião pública.
Nesse momento, teremos de revisar cada ato
controverso da saga. Teremos de explicar por que o inquérito das fake news foi
aberto de ofício, teremos de explicar por que, depois das prisões do 8 de
Janeiro, seguimos bloqueando contas nas mídias sociais, teremos de justificar
as penas severas aos “bagrinhos” presos no 8 de Janeiro. E teremos de fazer
isso sem comprometer as condenações de Bolsonaro e dos generais — separando o
que o Supremo misturou.
Lá atrás, quando a sociedade brasileira
aceitou dar poderes extraordinários para o Supremo proteger a democracia, a
contrapartida era que sua atuação técnica deveria ser impecável e que a Corte
demonstraria sobriedade institucional e autocontenção.
O Supremo condenou os acusados, mas recorreu
muitas vezes a procedimentos heterodoxos, vários deles abusivos, conferindo um
ar de parcialidade a sua atuação. Estamos perto do momento em que os erros do
passado serão cobrados.
A missão democrática hoje não é defender o
Supremo, fazendo vista grossa ao envolvimento de Toffoli e Moraes com Vorcaro.
A missão democrática hoje é sustentar que, apesar dos muitos erros da Corte, a
condenação dos golpistas foi justa e precisa ser mantida.

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