domingo, 29 de março de 2026

Enquanto esquerda debate o sexo dos anjos, direita se prepara para invadir o paraíso, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Erika Hilton foi engolfada em briga fratricida, e o pessoal de Damares Alves nem precisou entrar em campo

Corrupção será prato cheio na eleição, mas há fosso entre a obsessão moral das elites e as preocupações da população

A culpa é de Eva. Foi ela quem se deixou aliciar pela serpente e induziu Adão a comer a fruta proibida. Se fosse hoje, Adão tentaria a delação premiada para voltar ao paraíso. Mas as punições do Velho Testamento eram bem diferentes das do Judiciário moderno e, em vez de prender, Deus soltou os corrompidos no mundo. Desde o Éden, pecado e corrupção andam de mãos dadas e assim chegaram ao bacanal Daniel Vorcaro, em Trancoso.

A versão tupiniquim da ilha de Jeffrey Epstein era igualmente regada a dinheiro, sexo e poder. Ali, códigos profanos e divinos estavam suspensos, mas apenas após a queda de Vorcaro é que a categoria bíblica "corrupção" passou a descrever esse paraíso de pecadores.

O dedo em riste para os transgressores da moralidade pública gerou um famigerado PowerPoint, que lembrou outro. A diferença é que o original saiu do cérebro abençoado de Deltan Dallagnol e a cópia, de uma cabeça que já deve ter rolado na Redação da GloboNews.

Esse hiperfoco noticioso em corrupção chegou rapidinho a "o país precisa ser passado a limpo". Os governos de dois prisioneiros domiciliares, Fernando Collor e Jair Bolsonaro, são exemplares do resultado da sanha moralizadora. Ambos acabaram em desmonte de órgãos e políticas de Estado e em problemas com a Justiça. A promessa política de refundação paradisíaca para acabar com a corrupção entrega, em geral, apocalipse.

Se Vorcaro sacudiu a conversa sobre moralidade pública, Erika Hilton (PSOL-SP) puxou o fio mais recente do debate sobre moralidade privada —um fio já bem esticado. Há tempos, marchas pró-vida, secretarias da Família e toda a machosfera denunciam a degradação dos costumes e clamam pelo retorno da hierarquia patriarcal, aquela que não deu certo nem para Adão e Eva.

Mas a assunção de Hilton à Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados deslocou a discussão do substantivo, os direitos, para uma interminável conversa sobre a quem cabe decidir o sentido genuíno da adjetivação "da mulher". O pessoal de Damares Alves nem precisou entrar em campo: assistiu de camarote às vísceras abertas da esquerda, que briga entre si tanto ou mais que com os movimentos contrários aos direitos das mulheres e de quaisquer minorias.

As duas corrupções, pública e privada, serão um prato cheio para este ano eleitoral. Ronaldo Caiado já a tomou como foco na corrida presidencial.

Cabe perguntar, contudo: a quem interessa tanta celeuma em torno de moralidade?

Pesquisa Datafolha deste mês atesta que (diferentemente do que sugeria o título da Folha, como bem frisou a ombudsman) os maiores problemas para os brasileiros não são nenhuma das duas modalidades de corrupção. Sua versão "roubalheira" é citada por 9% dos entrevistados. O lado pecaminoso nem aparece.

As pessoas comuns se preocupam com a vida comum: aonde a família vai quando adoece, se é seguro andar na rua, se tem comida na mesa. Saúde (21%), segurança (19%) e economia (11%) preponderam como seus interesses. No topo de tudo, mostrou outro Datafolha, está o apoio absoluto (71%) ao fim da escala 6x1. Os brasileiros querem mais do mais precioso dos recursos, porque o menos disponível da sociedade contemporânea: o tempo.

Não é todo o mundo que se interessa em discutir corrupção, financeira ou de costumes. Há um fosso entre a obsessão moral de partes da elite social e as preocupações mais pedestres da maioria da população.

Hilton armou uma ponte entre a ilha moralizadora e o continente mourejador quando lançou sua bem-sucedida campanha por direito a mais descanso, mas foi depois engolfada em uma briga fratricida. É um pecadilho clássico da esquerda lançar a primeira pedra no olho da facção vizinha, sempre disputando entre si a superioridade moral.

A direita também tem suas rinhas, porque é um saco de gatos. Eles, no entanto, são mais pragmáticos que programáticos e, no final, costumam ficar todos pardos.

Enquanto um lado debate o sexo dos anjos, o outro se prepara para reinvadir o paraíso.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.