Folha de S. Paulo
Erika Hilton foi engolfada em briga
fratricida, e o pessoal de Damares Alves nem precisou entrar em campo
Corrupção será prato cheio na eleição, mas há fosso entre a obsessão moral das elites e as preocupações da população
A culpa é de Eva. Foi ela quem se deixou
aliciar pela serpente e induziu Adão a comer a fruta proibida. Se fosse hoje,
Adão tentaria a delação premiada para voltar ao paraíso. Mas as punições do
Velho Testamento eram bem diferentes das do Judiciário moderno e, em vez de
prender, Deus soltou os corrompidos no mundo. Desde o Éden, pecado e corrupção andam
de mãos dadas e assim chegaram ao bacanal Daniel
Vorcaro, em Trancoso.
A versão tupiniquim da ilha de Jeffrey
Epstein era igualmente regada a dinheiro, sexo e poder. Ali, códigos
profanos e divinos estavam suspensos, mas apenas após a queda de Vorcaro é que
a categoria bíblica "corrupção" passou a descrever esse paraíso de
pecadores.
O dedo em riste para os transgressores da moralidade pública gerou um famigerado PowerPoint, que lembrou outro. A diferença é que o original saiu do cérebro abençoado de Deltan Dallagnol e a cópia, de uma cabeça que já deve ter rolado na Redação da GloboNews.
Esse hiperfoco noticioso em corrupção chegou
rapidinho a "o país precisa ser passado a limpo". Os governos de dois
prisioneiros domiciliares, Fernando
Collor e Jair
Bolsonaro, são exemplares do resultado da sanha moralizadora. Ambos
acabaram em desmonte de órgãos e políticas de Estado e em problemas com a
Justiça. A promessa política de refundação paradisíaca para acabar com a
corrupção entrega, em geral, apocalipse.
Se Vorcaro sacudiu a conversa sobre
moralidade pública, Erika Hilton (PSOL-SP)
puxou o fio mais recente do debate sobre moralidade privada —um fio já bem
esticado. Há tempos, marchas pró-vida, secretarias da Família e toda a
machosfera denunciam a degradação dos costumes e clamam pelo retorno da
hierarquia patriarcal, aquela que não deu certo nem para Adão e Eva.
Mas a assunção de Hilton à Comissão de Defesa
dos Direitos da Mulher da Câmara
dos Deputados deslocou a discussão do substantivo, os direitos, para
uma interminável conversa sobre a quem cabe decidir o sentido genuíno da
adjetivação "da mulher". O pessoal de Damares Alves nem
precisou entrar em campo: assistiu de camarote às vísceras abertas da esquerda,
que briga entre si tanto ou mais que com os movimentos contrários aos direitos
das mulheres e de quaisquer minorias.
As duas corrupções, pública e privada, serão
um prato cheio para este ano eleitoral. Ronaldo
Caiado já a tomou como foco na corrida presidencial.
Cabe perguntar, contudo: a quem interessa
tanta celeuma em torno de moralidade?
Pesquisa Datafolha deste mês atesta que
(diferentemente do que sugeria o título
da Folha, como bem frisou
a ombudsman) os maiores problemas para os brasileiros não são nenhuma das
duas modalidades de corrupção. Sua versão "roubalheira" é citada por
9% dos entrevistados. O lado pecaminoso nem aparece.
As pessoas comuns se preocupam com a vida
comum: aonde a família vai quando adoece, se é seguro andar na rua, se tem
comida na mesa. Saúde (21%), segurança (19%) e economia (11%) preponderam como
seus interesses. No topo de tudo, mostrou
outro Datafolha, está o apoio absoluto (71%) ao fim da escala 6x1.
Os brasileiros querem mais do mais precioso dos recursos, porque o menos
disponível da sociedade contemporânea: o tempo.
Não é todo o mundo que se interessa em
discutir corrupção, financeira ou de costumes. Há um fosso entre a obsessão
moral de partes da elite social e as preocupações mais pedestres da maioria da
população.
Hilton armou uma ponte entre a ilha
moralizadora e o continente mourejador quando lançou sua bem-sucedida campanha
por direito a mais descanso, mas foi depois engolfada em uma briga fratricida.
É um pecadilho clássico da esquerda lançar a primeira pedra no olho da facção
vizinha, sempre disputando entre si a superioridade moral.
A direita também tem suas rinhas, porque é um
saco de gatos. Eles, no entanto, são mais pragmáticos que programáticos e, no
final, costumam ficar todos pardos.
Enquanto um lado debate o sexo dos anjos, o
outro se prepara para reinvadir o paraíso.

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