Folha de S. Paulo
Livro extraordinário de Sven Beckert ilumina
900 anos de história e mostra que o regime econômico sempre foi global
Para historiador, economia neoclássica ignora fatos e reduz a diversidade da vida econômica a deserto homogêneo
[RESUMO] "Capitalism: a Global History", livro recém-lançado de
Sven Beckert, preenche uma lacuna na bibliografia sobre a constituição do
regime econômico e desmente narrativas anteriores. Com uma análise empírica da
trajetória milenar do capitalismo, argumenta o autor, a obra retorna à melhor
criatividade da economia política e sustenta que o regime econômico não é
resultado dos mercados, mas um produto direto do poder do Estado.
Ao examinar a evolução do debate econômico do último meio século —da discussão sobre o desenvolvimento dos países ao desmoronamento da ordem mundial formalizada no pós-guerra, passando pela euforia com a globalização e a crise quase letal de 2008—, se nota uma faceta intrigante: há uma lacuna no diagnóstico das entranhas do capitalismo.
A maioria dos autores se concentrou nas
manifestações visíveis dos mecanismos econômicos ou financeiros e teve
dificuldades de explicar a estrutura subterrânea ou o verdadeiro modus operandi
do regime econômico hegemônico do planeta. A bibliografia se multiplicou, mas
foram poucos os esforços de monta de interpretação das particularidades do
capitalismo e do seu modo real de funcionamento.
Além dos chavões usuais ("economia de
livre mercado"), quantos saberiam explicar —concretamente, no âmbito da
realidade mais crua e cotidiana— o que significa capitalismo? Como compreender
os mecanismos ocultos da estrutura capitalista das sociedades?
Essa lacuna é, agora, preenchida. Em
novembro, foi lançado "Capitalism: a Global History" (Penguin Press), livro extraordinário
de Sven Beckert,
professor de história e codiretor do Centro de Estudos do Capitalismo da Universidade
Harvard. Trata-se de um esforço interpretativo espetacular que ilumina cerca de
900 anos de história humana em pouco mais de 1.300 páginas. O autor articula,
sob uma interpretação rigorosa e uma clareza analítica espantosa, os processos
que estruturaram a constituição do regime econômico.
O ponto de partida do autor é simples e
direto: quem tem capital, em qualquer magnitude, quer mais capital. Não devido
a alguma mania pessoal, mas porque esse é o único dogma incontornável do
capitalismo: acumular capital não é uma escolha, mas uma necessidade imanente
daqueles designados como capitalistas.
Portanto, onde alguma produção em tempos
imemoriais foi além da demanda imediata do seu produtor e gerou excedentes,
alguém quis vender ou trocar. Essa foi a primeira manifestação do capital e dos
capitalistas primitivos, mas não ainda o capitalismo. Nasciam o capital
comercial e os comerciantes. Na sequência, em circunstâncias favoráveis, a
história prosseguiu à medida que cresceu o comércio até que outras modalidades
de capital, como o industrial ou o financeiro, pudessem surgir séculos depois.
O fascínio do livro reside em méritos
numerosos da argumentação. O autor não se envolve em discussões teóricas ou
disputas conceituais exaustivas, mas oferece uma explicação rigorosamente
empírica, centrada em fatos distribuídos por todo o planeta em nove séculos,
inclusive sobre regiões que pouco conhecemos.
Beckert chega a discutir com algum pormenor a
história da ilha da Reunião, uma antiga possessão francesa no oceano Índico. O
Caribe, por sua vez, não tem segredos para Beckert, que também analisa fatos
históricos minuciosos de algumas ilhas da região, com destaque para São
Domingos e Barbados, expressões pioneiras do capitalismo como economia e como
sociedade.
O autor agrega histórias de comerciantes,
proprietários de terras e industriais em diferentes regiões do mundo e períodos
históricos, demonstrando a coleta de dados imensa e o exame bibliográfico
gigantesco que orientou o seu trabalho. Em muitas partes do livro, o nível de
detalhamento empírico causa perplexidade e um imenso deleite intelectual.
Citando até Caio Prado
Júnior, Beckert parte da hipótese que o regime econômico sempre foi
global e precisa ser analisado dessa forma —não existe um capitalismo nacional
isolado em sua análise.
A trajetória milenar do regime econômico
apresentada no livro desmente diversas narrativas anteriores. O capitalismo
nunca foi uma construção exclusivamente europeia, ainda que o continente tenha
dominado o seu curso a partir da conquista das Américas e da expansão da
escravidão e, sobretudo, com o advento da Primeira Revolução Industrial.
Depois, a Europa foi suplantada pela força
econômica norte-americana, que, por sua vez, vem sendo superada pela explosão
capitalista chinesa. O livro demonstra o poder, até a metade do milênio
analisado, dos impérios chineses, que geraram inovações impressionantes: o
papel moeda, navios imponentes e a formação de burocracias estáveis, por
exemplo.
Esses contextos demostram a flexibilidade do
capitalismo no seu sentido principal, de tudo transformar em mercadorias aptas
às transações nos múltiplos mercados formados ao longo do tempo. Se antes foram
produtos de consumo imediato, como alimentos, ou de ostentação e necessidades
distintas —ouro, porcelana, prata, roupas—, nos tempos atuais a voracidade
capitalista passou a mercantilizar até mesmo o ar que respiramos e precificar o
nosso tempo.
Durante esse longo processo, os recursos
naturais foram depredados sem limites, o que produziu impactos ambientais e,
como consequência, a crise
climática que vem engolfando a humanidade. Tudo isso sem citar
a mercantilização da mente humana, por meio da inteligência
artificial, cujos desdobramentos ainda são imprevisíveis.
O que torna o livro ainda mais sedutor é que
não se trata de uma análise abstrata, estruturalista ou economicista. Pelo
contrário, o capitalismo se concretiza por meio de pessoas e, assim, todos os
17 capítulos introduzem histórias reais de indivíduos ou grupos sociais de
destaque, humanizando os períodos analisados.
Por exemplo, o pequeno grupo de ingleses que
comandou Barbados com mão de ferro a partir de 1627 —a primeira sociedade
propriamente capitalista do mundo, uma plantation que respondeu por 65% da
produção de açúcar de todo o Caribe—, a família indiana que introduziu a
produção de máquinas de datilografia depois da independência do país e o
aprendizado recíproco entre os impérios da Fiat e da Ford durante a
consolidação do capital industrial no século 20.
O autor também se volta para a hoje modesta
Potosí, na Bolívia,
que, em 1600, era a cidade mais populosa das Américas. Nela, se chegou a
produzir 60% de toda a prata do mundo e, por isso, o peso espanhol, se tornou a
moeda universal naqueles anos.
O capitalismo tem sido um regime econômico
destinado a potencializar as assimetrias e as desigualdades sociais. Por isso,
nunca foi uma estrutura social natural ou inevitável, mas uma construção
essencialmente humana e, portanto, teoricamente finita. Opondo-se à acumulação
de capital e à exploração do trabalho, uma pretensa face humana do capitalismo
só teria existido em algumas sociedades durante o período expansionista de 1945
a 1973, os famosos 30 anos gloriosos do capitalismo.
Flexível, resiliente e adaptável aos
contextos mais variáveis, o capitalismo sempre produziu novas hierarquias
sociais, mas também resultados impressionantes —entre outros efeitos notáveis,
a expectativa de vida no mundo passou, de acordo com estimativas citadas no
livro, de 26 anos em 1820 para 72 anos em 2020.
"Capitalism: a Global History"
retorna à melhor criatividade da economia política. No capítulo 13, que aborda
os variados cercamentos construídos pelo capitalismo, sobretudo os que buscaram
capturar trabalhadores para a expansão da produção, Sven Beckert analisa o
mesmo processo de interdição no campo das ideias.
No final do século 19, sobretudo sob a
influência do economista britânico Alfred Marshall, teve início a chamada
revolução marginalista no campo da economia, que criou avenidas analíticas que
concretizaram os cânones da atualmente dominante economia neoclássica. Como
enfatiza o autor, essa escola se distanciou da vida real e reduziu "a rica
diversidade da vida econômica a um deserto homogêneo e ahistórico".
Embora sob o escudo de modelos matemáticos
sofisticados, que sugerem vínculos com a alta ciência, a economia foi
notavelmente empobrecida —passou a ignorar fatos da realidade e, ao mesmo
tempo, forçar a disseminação do mito da naturalização eterna do capitalismo,
desconsiderando que o regime econômico é uma construção humana que, em algum
momento, encontrará os seus limites finais.
Outro argumento central do livro é ainda mais
provocativo: para Beckert, o capitalismo não é resultado dos mercados, mas um
produto direto do Estado, "a instituição das instituições".
"Desde o início, foi o Estado, em todo o mundo, que criou o mercado. [...]
O capitalismo, para o desgosto de Adam Smith, achou a sua força motriz não na
competição, mas na riqueza viabilizada pelos monopólios sustentados pelo
Estado", escreve o autor.
Portanto, sem a força impositiva do Estado,
argumenta Beckert, o capitalismo jamais existiria. O termo, aliás, tem origem
na década de 1840, na França, sintomaticamente ao mesmo tempo que ocorreu a
legitimação política do próprio Estado.
O capitalismo se consolidou inicialmente nas
cidades, embora nascido nas regiões rurais. De acordo com o autor,
primeiramente em ilhas de capital, onde o comércio se instalou e se expandiu a
partir do que chama de grande conexão –quando o comércio de longa distância
articulou essas ilhas e os mercados prosperaram.
Posteriormente, Beckert descreve o surgimento
de diversas esferas de proto-industrialização, que passaram a integrar as
regiões rurais e do interior, seguida da "tempestade perfeita", que
combinou processos como a chegada dos europeus às Américas, o crescimento
espantoso do comércio e, sobretudo, a introdução do trabalho de escravizados,
notadamente da África, em diversas partes do mundo, o que ampliou a formação de
novas ilhas de capital e novos processos de formação de riqueza. Esses foram os
antecedentes da Primeira Revolução Industrial.
Na sequência, aponta o autor, depois de um
período tumultuado de rebeliões das maiorias subalternas durante o século 19,
uma "civilização capitalista" passou a se estruturar na segunda
metade daquele século e, de forma cada vez mais acelerada, a partir do início
do século 20.
Beckert lembra que uma visão crítica do
capitalismo –marcada pela denúncia da exploração, da violência e da produção da
pobreza e pela proposição de um futuro socialista vago– vem perdendo força
frente à abundância material contemporânea. Com isso, o consumo passou a ser a
motivação quase exclusiva das maiorias e um imaginário político alternativo de
futuro submergiu. "Um outro mundo possível", de fato, é cada vez mais
um horizonte inatingível ou, como afirma o autor, "os trabalhadores podem
ter cantado a Internacional, mas os capitalistas a praticavam".
Por isso, ditaduras de partido único, como a
chinesa, são pouco confrontadas politicamente e, em regimes eleitorais
relativamente livres, as maiorias tendem a eleger autocratas que ignoram
preceitos democráticos, mas fazem promessas de bonança material.
Seria essa a perspectiva dos próximos anos?
Beckert não avança essa possibilidade, mas isso fica subentendido no livro: se
a face econômica do capitalismo se tornou tão entranhada na vida social e todos
passamos a nos orientar pela renda e pelo consumo, as sociedades perdem
interesse na política.
"Capitalism: a Global History" é
uma leitura imperdível, que ilumina a história humana a partir de um acúmulo de
dados fabuloso. O livro contribui para abrandar as formas variadas de
pensamento mágico e as mistificações que marcam o debate sobre o tema.
No Brasil, a obra nos ajuda a compreender,
por exemplo, o papel da escravidão na formação da nossa sociedade e a
marginalização do país na trajetória do capitalismo global, que nos condenou a
ciclos econômicos menores e impediu a formação de ilhas de capital mais
vigorosas. Em decorrência disso, na longa marcha do capitalismo, sempre
ocupamos os vagões finais e mantivemos o atraso como a nossa maior marca.
À luz da história narrada, o livro aponta
que, nos últimos 150 anos, o capitalismo global vem se acelerando
incessantemente e incorporando todos os rincões do planeta sob o seu domínio à
sua lógica. Estaríamos nos aproximando de um descarrilamento apocalíptico?
*Zander Navarro, Sociólogo e professor aposentado da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), atualmente cedido ao Ministério da Agricultura e Pecuária
Capitalism: a Global History
Preço R$ 213 (1344
págs.); R$ 119,90 (ebook)
Autoria Sven Beckert
Editora Penguin Pres

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