segunda-feira, 23 de março de 2026

Estado, não livre mercado, forjou o capitalismo, afirma professor de Harvard, por Zander Navarro*

Folha de S. Paulo

Livro extraordinário de Sven Beckert ilumina 900 anos de história e mostra que o regime econômico sempre foi global

Para historiador, economia neoclássica ignora fatos e reduz a diversidade da vida econômica a deserto homogêneo

[RESUMO] "Capitalism: a Global History", livro recém-lançado de Sven Beckert, preenche uma lacuna na bibliografia sobre a constituição do regime econômico e desmente narrativas anteriores. Com uma análise empírica da trajetória milenar do capitalismo, argumenta o autor, a obra retorna à melhor criatividade da economia política e sustenta que o regime econômico não é resultado dos mercados, mas um produto direto do poder do Estado.

Ao examinar a evolução do debate econômico do último meio século —da discussão sobre o desenvolvimento dos países ao desmoronamento da ordem mundial formalizada no pós-guerra, passando pela euforia com a globalização e a crise quase letal de 2008—, se nota uma faceta intrigante: há uma lacuna no diagnóstico das entranhas do capitalismo.

A maioria dos autores se concentrou nas manifestações visíveis dos mecanismos econômicos ou financeiros e teve dificuldades de explicar a estrutura subterrânea ou o verdadeiro modus operandi do regime econômico hegemônico do planeta. A bibliografia se multiplicou, mas foram poucos os esforços de monta de interpretação das particularidades do capitalismo e do seu modo real de funcionamento.

Além dos chavões usuais ("economia de livre mercado"), quantos saberiam explicar —concretamente, no âmbito da realidade mais crua e cotidiana— o que significa capitalismo? Como compreender os mecanismos ocultos da estrutura capitalista das sociedades?

Essa lacuna é, agora, preenchida. Em novembro, foi lançado "Capitalism: a Global History" (Penguin Press), livro extraordinário de Sven Beckert, professor de história e codiretor do Centro de Estudos do Capitalismo da Universidade Harvard. Trata-se de um esforço interpretativo espetacular que ilumina cerca de 900 anos de história humana em pouco mais de 1.300 páginas. O autor articula, sob uma interpretação rigorosa e uma clareza analítica espantosa, os processos que estruturaram a constituição do regime econômico.

O ponto de partida do autor é simples e direto: quem tem capital, em qualquer magnitude, quer mais capital. Não devido a alguma mania pessoal, mas porque esse é o único dogma incontornável do capitalismo: acumular capital não é uma escolha, mas uma necessidade imanente daqueles designados como capitalistas.

Portanto, onde alguma produção em tempos imemoriais foi além da demanda imediata do seu produtor e gerou excedentes, alguém quis vender ou trocar. Essa foi a primeira manifestação do capital e dos capitalistas primitivos, mas não ainda o capitalismo. Nasciam o capital comercial e os comerciantes. Na sequência, em circunstâncias favoráveis, a história prosseguiu à medida que cresceu o comércio até que outras modalidades de capital, como o industrial ou o financeiro, pudessem surgir séculos depois.

O fascínio do livro reside em méritos numerosos da argumentação. O autor não se envolve em discussões teóricas ou disputas conceituais exaustivas, mas oferece uma explicação rigorosamente empírica, centrada em fatos distribuídos por todo o planeta em nove séculos, inclusive sobre regiões que pouco conhecemos.

Beckert chega a discutir com algum pormenor a história da ilha da Reunião, uma antiga possessão francesa no oceano Índico. O Caribe, por sua vez, não tem segredos para Beckert, que também analisa fatos históricos minuciosos de algumas ilhas da região, com destaque para São Domingos e Barbados, expressões pioneiras do capitalismo como economia e como sociedade.

O autor agrega histórias de comerciantes, proprietários de terras e industriais em diferentes regiões do mundo e períodos históricos, demonstrando a coleta de dados imensa e o exame bibliográfico gigantesco que orientou o seu trabalho. Em muitas partes do livro, o nível de detalhamento empírico causa perplexidade e um imenso deleite intelectual.

Citando até Caio Prado Júnior, Beckert parte da hipótese que o regime econômico sempre foi global e precisa ser analisado dessa forma —não existe um capitalismo nacional isolado em sua análise.

A trajetória milenar do regime econômico apresentada no livro desmente diversas narrativas anteriores. O capitalismo nunca foi uma construção exclusivamente europeia, ainda que o continente tenha dominado o seu curso a partir da conquista das Américas e da expansão da escravidão e, sobretudo, com o advento da Primeira Revolução Industrial.

Depois, a Europa foi suplantada pela força econômica norte-americana, que, por sua vez, vem sendo superada pela explosão capitalista chinesa. O livro demonstra o poder, até a metade do milênio analisado, dos impérios chineses, que geraram inovações impressionantes: o papel moeda, navios imponentes e a formação de burocracias estáveis, por exemplo.

Esses contextos demostram a flexibilidade do capitalismo no seu sentido principal, de tudo transformar em mercadorias aptas às transações nos múltiplos mercados formados ao longo do tempo. Se antes foram produtos de consumo imediato, como alimentos, ou de ostentação e necessidades distintas —ouro, porcelana, prata, roupas—, nos tempos atuais a voracidade capitalista passou a mercantilizar até mesmo o ar que respiramos e precificar o nosso tempo.

Durante esse longo processo, os recursos naturais foram depredados sem limites, o que produziu impactos ambientais e, como consequência, a crise climática que vem engolfando a humanidade. Tudo isso sem citar a mercantilização da mente humana, por meio da inteligência artificial, cujos desdobramentos ainda são imprevisíveis.

O que torna o livro ainda mais sedutor é que não se trata de uma análise abstrata, estruturalista ou economicista. Pelo contrário, o capitalismo se concretiza por meio de pessoas e, assim, todos os 17 capítulos introduzem histórias reais de indivíduos ou grupos sociais de destaque, humanizando os períodos analisados.

Por exemplo, o pequeno grupo de ingleses que comandou Barbados com mão de ferro a partir de 1627 —a primeira sociedade propriamente capitalista do mundo, uma plantation que respondeu por 65% da produção de açúcar de todo o Caribe—, a família indiana que introduziu a produção de máquinas de datilografia depois da independência do país e o aprendizado recíproco entre os impérios da Fiat e da Ford durante a consolidação do capital industrial no século 20.

O autor também se volta para a hoje modesta Potosí, na Bolívia, que, em 1600, era a cidade mais populosa das Américas. Nela, se chegou a produzir 60% de toda a prata do mundo e, por isso, o peso espanhol, se tornou a moeda universal naqueles anos.

O capitalismo tem sido um regime econômico destinado a potencializar as assimetrias e as desigualdades sociais. Por isso, nunca foi uma estrutura social natural ou inevitável, mas uma construção essencialmente humana e, portanto, teoricamente finita. Opondo-se à acumulação de capital e à exploração do trabalho, uma pretensa face humana do capitalismo só teria existido em algumas sociedades durante o período expansionista de 1945 a 1973, os famosos 30 anos gloriosos do capitalismo.

Flexível, resiliente e adaptável aos contextos mais variáveis, o capitalismo sempre produziu novas hierarquias sociais, mas também resultados impressionantes —entre outros efeitos notáveis, a expectativa de vida no mundo passou, de acordo com estimativas citadas no livro, de 26 anos em 1820 para 72 anos em 2020.

"Capitalism: a Global History" retorna à melhor criatividade da economia política. No capítulo 13, que aborda os variados cercamentos construídos pelo capitalismo, sobretudo os que buscaram capturar trabalhadores para a expansão da produção, Sven Beckert analisa o mesmo processo de interdição no campo das ideias.

No final do século 19, sobretudo sob a influência do economista britânico Alfred Marshall, teve início a chamada revolução marginalista no campo da economia, que criou avenidas analíticas que concretizaram os cânones da atualmente dominante economia neoclássica. Como enfatiza o autor, essa escola se distanciou da vida real e reduziu "a rica diversidade da vida econômica a um deserto homogêneo e ahistórico".

Embora sob o escudo de modelos matemáticos sofisticados, que sugerem vínculos com a alta ciência, a economia foi notavelmente empobrecida —passou a ignorar fatos da realidade e, ao mesmo tempo, forçar a disseminação do mito da naturalização eterna do capitalismo, desconsiderando que o regime econômico é uma construção humana que, em algum momento, encontrará os seus limites finais.

Outro argumento central do livro é ainda mais provocativo: para Beckert, o capitalismo não é resultado dos mercados, mas um produto direto do Estado, "a instituição das instituições". "Desde o início, foi o Estado, em todo o mundo, que criou o mercado. [...] O capitalismo, para o desgosto de Adam Smith, achou a sua força motriz não na competição, mas na riqueza viabilizada pelos monopólios sustentados pelo Estado", escreve o autor.

Portanto, sem a força impositiva do Estado, argumenta Beckert, o capitalismo jamais existiria. O termo, aliás, tem origem na década de 1840, na França, sintomaticamente ao mesmo tempo que ocorreu a legitimação política do próprio Estado.

O capitalismo se consolidou inicialmente nas cidades, embora nascido nas regiões rurais. De acordo com o autor, primeiramente em ilhas de capital, onde o comércio se instalou e se expandiu a partir do que chama de grande conexão –quando o comércio de longa distância articulou essas ilhas e os mercados prosperaram.

Posteriormente, Beckert descreve o surgimento de diversas esferas de proto-industrialização, que passaram a integrar as regiões rurais e do interior, seguida da "tempestade perfeita", que combinou processos como a chegada dos europeus às Américas, o crescimento espantoso do comércio e, sobretudo, a introdução do trabalho de escravizados, notadamente da África, em diversas partes do mundo, o que ampliou a formação de novas ilhas de capital e novos processos de formação de riqueza. Esses foram os antecedentes da Primeira Revolução Industrial.

Na sequência, aponta o autor, depois de um período tumultuado de rebeliões das maiorias subalternas durante o século 19, uma "civilização capitalista" passou a se estruturar na segunda metade daquele século e, de forma cada vez mais acelerada, a partir do início do século 20.

Beckert lembra que uma visão crítica do capitalismo –marcada pela denúncia da exploração, da violência e da produção da pobreza e pela proposição de um futuro socialista vago– vem perdendo força frente à abundância material contemporânea. Com isso, o consumo passou a ser a motivação quase exclusiva das maiorias e um imaginário político alternativo de futuro submergiu. "Um outro mundo possível", de fato, é cada vez mais um horizonte inatingível ou, como afirma o autor, "os trabalhadores podem ter cantado a Internacional, mas os capitalistas a praticavam".

Por isso, ditaduras de partido único, como a chinesa, são pouco confrontadas politicamente e, em regimes eleitorais relativamente livres, as maiorias tendem a eleger autocratas que ignoram preceitos democráticos, mas fazem promessas de bonança material.

Seria essa a perspectiva dos próximos anos? Beckert não avança essa possibilidade, mas isso fica subentendido no livro: se a face econômica do capitalismo se tornou tão entranhada na vida social e todos passamos a nos orientar pela renda e pelo consumo, as sociedades perdem interesse na política.

"Capitalism: a Global History" é uma leitura imperdível, que ilumina a história humana a partir de um acúmulo de dados fabuloso. O livro contribui para abrandar as formas variadas de pensamento mágico e as mistificações que marcam o debate sobre o tema.

No Brasil, a obra nos ajuda a compreender, por exemplo, o papel da escravidão na formação da nossa sociedade e a marginalização do país na trajetória do capitalismo global, que nos condenou a ciclos econômicos menores e impediu a formação de ilhas de capital mais vigorosas. Em decorrência disso, na longa marcha do capitalismo, sempre ocupamos os vagões finais e mantivemos o atraso como a nossa maior marca.

À luz da história narrada, o livro aponta que, nos últimos 150 anos, o capitalismo global vem se acelerando incessantemente e incorporando todos os rincões do planeta sob o seu domínio à sua lógica. Estaríamos nos aproximando de um descarrilamento apocalíptico?

*Zander Navarro, Sociólogo e professor aposentado da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), atualmente cedido ao Ministério da Agricultura e Pecuária

Capitalism: a Global History

Preço R$ 213 (1344 págs.); R$ 119,90 (ebook)

Autoria Sven Beckert

Editora Penguin Pres

 

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