Folha de S. Paulo
A diversidade e o grande número de envolvidos
aumentam as chances de punição ou de impunidade recíproca?
Quando muitos interesses são afetados, ainda
que rivais, e o grau de comprometimento ultrapassa certos limiares, o resultado
é o conluio geral
Há perplexidade generalizada diante da estrutura tentacular e de dimensões colossais do affair Master. Sobra (quase) ninguém! A mais recente revelação: o filho de um ministro do STF e a nora do líder do governo no Senado teriam recebido somas milionárias do banco. O envolvimento de um número estarrecedor de atores —de autoridades dos três Poderes a empresários—, para além de qualquer clivagem ideológica, suscita uma questão central: quanto maior e mais diverso o número de implicados, maior a probabilidade de emergirem denúncias cruzadas que alimentem uma dinâmica de incriminação recíproca? A resposta otimista é: sim!
O primeiro a formular essa intuição foi
Madison, nos "Federalist Papers". Para ele, o arranjo institucional
mais eficaz no controle dos governantes é aquele baseado no controle recíproco
entre interesses rivais. A ambição, dizia, deve ser colocada contra a ambição.
Não se trata de confiar na virtude dos governantes, mas de estruturar
instituições e incentivos de tal forma que interesses em competição se vigiem
mutuamente.
O caso Master exibe grande complexidade, pois
envolve uma estrutura em dois níveis interligados. O primeiro diz respeito ao
ambiente externo ao Supremo. Aqui a pluralidade está associada a custos
reputacionais impostos pela imprensa independente e agências semi autônomas
(Polícia Federal, por exemplo). E clivagens entre setores empresariais (bancos
grandes e pequenos, etc.) ou agentes políticos rivais. O segundo refere-se ao
ambiente interno do Supremo (divisões nas turmas e plenário). O caso é
absolutamente singular: as denúncias atingem diversos membros da corte. A
questão central remete aos desdobramentos do caso após eventual delação do
controlador do Banco: as delações no caso serão apreciadas pelos próprios
implicados?
Madison é guia para compreender a interação
entre instituições —sobretudo entre os três Poderes—, mas suas intuições também
se aplicam aos indivíduos. Basta considerar o contrafactual: se o relator
sorteado não fosse André
Mendonça, qual seria o desfecho? E se os ministros do STF tivessem
sido nomeados por um único presidente ou por uma mesma facção
político-partidária? A conclusão é clara: o pior arranjo para a accountability
democrática ocorre quando há controle hegemônico de um único grupo. Ou seja, o
número elevado de interesses contrariados geraria problemas de coordenação
suficientes para inviabilizar uma reação consertada.
Mas a resposta à pergunta inicial pode também
ser: não! Quando muitos interesses são afetados —ainda que rivais— e o grau de
comprometimento ultrapassa certos limiares, o resultado é o conluio geral. Aqui
é terra arrasada: o grau de comprometimento dos principais atores políticos é
tal que aumentariam brutalmente as chances de um acordo tácito entre as partes
—mesmo com clivagens múltiplas (governo/oposição; esquerda/direita)— para
garantir impunidade recíproca. Mesmo teoricamente rival do Executivo, setores
majoritários do Senado alinham-se com a impunidade no Executivo e na corte.
A experiência da Lava Jato, no entanto,
sugere a ocorrência de acertos de
contas pós-julgamento. A revelação de transferências da J&F para
compradores do Taiaia é mais um indício. Desta vez será
diferente?

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