O Globo
Degradação escancarada pelo 'apagão' na linha
sucessória, mostra risco de não conter infiltração do crime nas instituições
públicas
O Brasil assiste com estupefação a um dos
capítulos mais lamentáveis da profunda degradação da política fluminense. O Rio
de Janeiro tem sido, há décadas, um laboratório macabro da captura de governos
(estadual e municipais), legislativos, partidos e polícias pelo crime.
O apagão na linha sucessória do Estado acontece em decorrência de alguns dos muitos escândalos da história recente do Rio.
O governo está vago porque o vice-governador
Thiago Pampolha foi nomeado para uma vaga vitalícia no Tribunal de Contas do
Estado para abrir caminho para o então presidente da Assembleia, Rodrigo
Bacellar, assumir o governo quando Cláudio Castro renunciasse ao posto para
disputar o Senado.
Acontece que o que parecia um plano perfeito
ruiu diante da cassação de ambos por abuso de poder econômico nas eleições de
2022, no chamado caso da folha de pagamento secreta da Fundação Ceperj. Não
fosse o suficiente, Bacellar chegou a ser preso e é investigado sob a acusação
de vazar dados de investigações para integrantes do Comando Vermelho. Que
combo!
O que se assiste desde então é um show de
horrores em termos de insegurança jurídica. Quem fica à mercê de sucessivas
reviravoltas, todas elas incompreensíveis, é a população, que terá de ir às
urnas em outubro depois de meses em que tudo pode acontecer, dado o grau de
esgarçamento das relações entre os principais grupos políticos do Estado e de
tudo que está em jogo na disputa eleitoral.
Na verdade, ninguém tem a menor ideia de quem
será o governador em outubro nem de como ele chegará ao Palácio Guanabara.
Uma disputa de vida ou morte pelo poder, como
essa a que se assiste, só de justifica quando se sabe que as diversas facções
criminosas que agem em todo o Brasil, mas exercem domínio territorial e
populacional no Rio de forma mais explícita e consolidada que no resto do país,
há tempos compreenderam que a ocupação de mandatos e de postos-chave na
estrutura dos três Poderes é fundamental para assegurar seu predomínio e sua
quase inviolabilidade.
Não parece haver, dada a dificuldade de até
mesmo os tribunais superiores tentarem impor alguma ordem nessa barafunda,
possibilidade de que as eleições que se aproximam consigam representar uma
mudança significativa nos preocupantes rumos da política fluminense.
Pior: a depender das decisões dos próximos
dias, o risco concreto é de exacerbação da infiltração das estruturas públicas,
com consequências dramáticas não só para o Rio, mas para o Brasil, que se vê às
voltas com a diversificação e a sofisticação constantes dos métodos e das
atividades dessas facções criminosas.
Na teoria, o quadro dramático do Rio até
poderia justificar uma intervenção federal para o estabelecimento de regras
minimamente objetivas para a escolha do governador-tampão que vai comandar o
Estado até as eleições gerais.
Mas seria politicamente inviável para Lula
aventar essa possibilidade, que, segundo aliados do presidente, de fato nem
passa pela sua cabeça.
Já são muitos os obstáculos políticos para a
montagem de palanques para o petista, e a região Sudeste é um dos campos mais
minados que ele tem a enfrentar.
Soma-se a isso o caráter explosivo do tema da
segurança pública e, dentro dele, o capítulo do enfrentamento das facções
criminosas, com a tensão trazida pela ideia dos Estados Unidos de
classificá-las como grupos terroristas, e tem-se um caminhão de motivos para o
Planalto ficar o mais longe possível da conflagração vivida no Rio.
Pode até ser estrategicamente mais prudente,
mas não será possível ao poder central se manter por mais muito tempo omisso
enquanto as coisas se deterioram na Guanabara.
Como laboratório, o Rio tem sido muito rápido
em exportar suas chagas. Elas já estão disseminadas pelo mapa do Brasil e com
bases sólidas em Brasília. O grande perigo que corremos é que as eleições de
outubro deflagrem uma nova etapa no processo de mexicanização das nossas
instituições.

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