sexta-feira, 27 de março de 2026

Estado rumo à mexicanização, por Vera Magalhães

O Globo

Degradação escancarada pelo 'apagão' na linha sucessória, mostra risco de não conter infiltração do crime nas instituições públicas

O Brasil assiste com estupefação a um dos capítulos mais lamentáveis da profunda degradação da política fluminense. O Rio de Janeiro tem sido, há décadas, um laboratório macabro da captura de governos (estadual e municipais), legislativos, partidos e polícias pelo crime.

O apagão na linha sucessória do Estado acontece em decorrência de alguns dos muitos escândalos da história recente do Rio.

O governo está vago porque o vice-governador Thiago Pampolha foi nomeado para uma vaga vitalícia no Tribunal de Contas do Estado para abrir caminho para o então presidente da Assembleia, Rodrigo Bacellar, assumir o governo quando Cláudio Castro renunciasse ao posto para disputar o Senado.

Acontece que o que parecia um plano perfeito ruiu diante da cassação de ambos por abuso de poder econômico nas eleições de 2022, no chamado caso da folha de pagamento secreta da Fundação Ceperj. Não fosse o suficiente, Bacellar chegou a ser preso e é investigado sob a acusação de vazar dados de investigações para integrantes do Comando Vermelho. Que combo!

O que se assiste desde então é um show de horrores em termos de insegurança jurídica. Quem fica à mercê de sucessivas reviravoltas, todas elas incompreensíveis, é a população, que terá de ir às urnas em outubro depois de meses em que tudo pode acontecer, dado o grau de esgarçamento das relações entre os principais grupos políticos do Estado e de tudo que está em jogo na disputa eleitoral.

Na verdade, ninguém tem a menor ideia de quem será o governador em outubro nem de como ele chegará ao Palácio Guanabara.

Uma disputa de vida ou morte pelo poder, como essa a que se assiste, só de justifica quando se sabe que as diversas facções criminosas que agem em todo o Brasil, mas exercem domínio territorial e populacional no Rio de forma mais explícita e consolidada que no resto do país, há tempos compreenderam que a ocupação de mandatos e de postos-chave na estrutura dos três Poderes é fundamental para assegurar seu predomínio e sua quase inviolabilidade.

Não parece haver, dada a dificuldade de até mesmo os tribunais superiores tentarem impor alguma ordem nessa barafunda, possibilidade de que as eleições que se aproximam consigam representar uma mudança significativa nos preocupantes rumos da política fluminense.

Pior: a depender das decisões dos próximos dias, o risco concreto é de exacerbação da infiltração das estruturas públicas, com consequências dramáticas não só para o Rio, mas para o Brasil, que se vê às voltas com a diversificação e a sofisticação constantes dos métodos e das atividades dessas facções criminosas.

Na teoria, o quadro dramático do Rio até poderia justificar uma intervenção federal para o estabelecimento de regras minimamente objetivas para a escolha do governador-tampão que vai comandar o Estado até as eleições gerais.

Mas seria politicamente inviável para Lula aventar essa possibilidade, que, segundo aliados do presidente, de fato nem passa pela sua cabeça.

Já são muitos os obstáculos políticos para a montagem de palanques para o petista, e a região Sudeste é um dos campos mais minados que ele tem a enfrentar.

Soma-se a isso o caráter explosivo do tema da segurança pública e, dentro dele, o capítulo do enfrentamento das facções criminosas, com a tensão trazida pela ideia dos Estados Unidos de classificá-las como grupos terroristas, e tem-se um caminhão de motivos para o Planalto ficar o mais longe possível da conflagração vivida no Rio.

Pode até ser estrategicamente mais prudente, mas não será possível ao poder central se manter por mais muito tempo omisso enquanto as coisas se deterioram na Guanabara.

Como laboratório, o Rio tem sido muito rápido em exportar suas chagas. Elas já estão disseminadas pelo mapa do Brasil e com bases sólidas em Brasília. O grande perigo que corremos é que as eleições de outubro deflagrem uma nova etapa no processo de mexicanização das nossas instituições.

 

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