O Globo
A possibilidade de terminar em pizza faz com
que a credibilidade institucional do país seja reduzida, senão a pó, pelo menos
a uma politicagem malvista pela população e provoca reações diversas na
sociedade
A crise institucional anunciada se amplia à medida que se espalham as notícias de que há mais uma tentativa de superar os problemas causados por relações indevidas de dois dos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) com o caso Master. A tentativa de estancar a sangria — “com o Supremo, com tudo”, como previa o lobista Romero Jucá e aconteceu na Operação Lava-Jato — faz com que outras instituições, como as Forças Armadas, se inquietem com a possibilidade de que a solução seja varrer para debaixo do tapete os acontecidos e fingir que nada houve de mais grave.
A possibilidade de terminar em pizza faz com
que a credibilidade institucional do país seja reduzida, senão a pó, pelo menos
a uma politicagem malvista pela população e provoca reações diversas na
sociedade, que se refletem nas pesquisas eleitorais, nos meios militares e
políticos. A repercussão dos desvios de que são suspeitos os ministros
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se refletirá na campanha eleitoral e tem
efeito de longa duração. Não se trata de indignação passageira, como a provocada
por alguma frase infeliz do presidente Lula ou por uma escola de samba que
atravessou o ritmo para desfilar na campanha eleitoral.
Há uma sensação de que o governo tem culpa
nesse cartório e de que o próprio presidente manipula a situação a seu favor.
Como, no entanto, esse é um caso apartidário, e Daniel Vorcaro cooptou vários
setores da máquina de poder de Brasília, também os candidatos de oposição são
acusados de participação no esquema. Não esquecer que o senador Ciro Nogueira
propôs subir o limite protegido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$
250 mil para R$ 1 milhão, o que quadruplicaria o golpe do Master.
Como o Brasil anda calcificado, na definição
do cientista político Felipe Nunes, da Quaest, há disparates para todos os
lados. Criticar Moraes agora significa apoiar o bolsonarismo. A esquerda
resolveu assumir a defesa dos ministros do Supremo, como se a eles fosse dado o
privilégio da impunidade, pois salvaram a democracia. Os militares, que
desmontaram o golpe pela não adesão aos planos de Bolsonaro, sofreram. Suas
maçãs podres foram devidamente julgadas e condenadas, sem que houvesse reação
corporativista como a que toma conta dos supremos.
O descontrole é tão grande que, de herói para
boa parte da população, Moraes virou suspeito, enquanto outro ministro, André
Mendonça, é agora poderoso. Os dois são saídos da direita política. Moraes foi
nomeado por Michel Temer, o traidor de Dilma na versão da esquerda; Mendonça,
por Bolsonaro. Cada um dos lados calcificados escolhe seu malvado favorito e
faz com que a política brasileira seja um painel alucinado em que, de vez em
quando, escolhem um herói para chamar de seu. O ministro Gilmar Mendes já foi
herói da direita quando classificou o governo petista de “cleptocracia” ou
quando impediu Dilma de nomear o então ex-presidente Lula chefe da Casa Civil.
Virou herói da esquerda quando, para se
vingar do juiz Sergio Moro, comandou uma campanha virulenta contra ele e os
procuradores de Curitiba, baseado em prova ilegal conseguida por meio de um
hacker que acabou preso por invadir o site do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) e, passando-se pelo ministro Moraes, mandou prendê-lo, numa irônica ação
criminosa. Gilmar conseguiu, com o fim da prisão em segunda instância, liberar
Lula da cadeia e, mais adiante, decretar que Moro era um juiz parcial e
suspeito, levando todos os processos da Operação Lava-Jato a ser anulados, até
os que envolviam devolução do dinheiro roubado.
Todas essas idas e vindas acontecem porque,
há muito tempo, a maioria dos ministros do Supremo se considera parte do jogo
político, muda de jurisprudência de acordo com os ventos e se envolve em
negócios privados como se fosse um cidadão comum, quando deveria ser
jurisconsulto acima de qualquer suspeita.

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