terça-feira, 10 de março de 2026

Estancar a sangria, por Merval Pereira

O Globo

A possibilidade de terminar em pizza faz com que a credibilidade institucional do país seja reduzida, senão a pó, pelo menos a uma politicagem malvista pela população e provoca reações diversas na sociedade

A crise institucional anunciada se amplia à medida que se espalham as notícias de que há mais uma tentativa de superar os problemas causados por relações indevidas de dois dos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) com o caso Master. A tentativa de estancar a sangria — “com o Supremo, com tudo”, como previa o lobista Romero Jucá e aconteceu na Operação Lava-Jato — faz com que outras instituições, como as Forças Armadas, se inquietem com a possibilidade de que a solução seja varrer para debaixo do tapete os acontecidos e fingir que nada houve de mais grave.

A possibilidade de terminar em pizza faz com que a credibilidade institucional do país seja reduzida, senão a pó, pelo menos a uma politicagem malvista pela população e provoca reações diversas na sociedade, que se refletem nas pesquisas eleitorais, nos meios militares e políticos. A repercussão dos desvios de que são suspeitos os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se refletirá na campanha eleitoral e tem efeito de longa duração. Não se trata de indignação passageira, como a provocada por alguma frase infeliz do presidente Lula ou por uma escola de samba que atravessou o ritmo para desfilar na campanha eleitoral.

Há uma sensação de que o governo tem culpa nesse cartório e de que o próprio presidente manipula a situação a seu favor. Como, no entanto, esse é um caso apartidário, e Daniel Vorcaro cooptou vários setores da máquina de poder de Brasília, também os candidatos de oposição são acusados de participação no esquema. Não esquecer que o senador Ciro Nogueira propôs subir o limite protegido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o que quadruplicaria o golpe do Master.

Como o Brasil anda calcificado, na definição do cientista político Felipe Nunes, da Quaest, há disparates para todos os lados. Criticar Moraes agora significa apoiar o bolsonarismo. A esquerda resolveu assumir a defesa dos ministros do Supremo, como se a eles fosse dado o privilégio da impunidade, pois salvaram a democracia. Os militares, que desmontaram o golpe pela não adesão aos planos de Bolsonaro, sofreram. Suas maçãs podres foram devidamente julgadas e condenadas, sem que houvesse reação corporativista como a que toma conta dos supremos.

O descontrole é tão grande que, de herói para boa parte da população, Moraes virou suspeito, enquanto outro ministro, André Mendonça, é agora poderoso. Os dois são saídos da direita política. Moraes foi nomeado por Michel Temer, o traidor de Dilma na versão da esquerda; Mendonça, por Bolsonaro. Cada um dos lados calcificados escolhe seu malvado favorito e faz com que a política brasileira seja um painel alucinado em que, de vez em quando, escolhem um herói para chamar de seu. O ministro Gilmar Mendes já foi herói da direita quando classificou o governo petista de “cleptocracia” ou quando impediu Dilma de nomear o então ex-presidente Lula chefe da Casa Civil.

Virou herói da esquerda quando, para se vingar do juiz Sergio Moro, comandou uma campanha virulenta contra ele e os procuradores de Curitiba, baseado em prova ilegal conseguida por meio de um hacker que acabou preso por invadir o site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, passando-se pelo ministro Moraes, mandou prendê-lo, numa irônica ação criminosa. Gilmar conseguiu, com o fim da prisão em segunda instância, liberar Lula da cadeia e, mais adiante, decretar que Moro era um juiz parcial e suspeito, levando todos os processos da Operação Lava-Jato a ser anulados, até os que envolviam devolução do dinheiro roubado.

Todas essas idas e vindas acontecem porque, há muito tempo, a maioria dos ministros do Supremo se considera parte do jogo político, muda de jurisprudência de acordo com os ventos e se envolve em negócios privados como se fosse um cidadão comum, quando deveria ser jurisconsulto acima de qualquer suspeita.

 

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