quinta-feira, 19 de março de 2026

Fachin e o julgamento de Vorcaro, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Os 50 minutos que separaram o início do julgamento sobre a prisão de Daniel Vorcaro do placar com maioria contra o banqueiro não foram casualidade. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atuou nos bastidores para que o resultado da votação fosse sacramentado logo.

O julgamento começou na sexta-feira, 13, no plenário virtual da Segunda Turma, e só termina amanhã. Mesmo com uma semana de prazo para votar, três dos quatro ministros aptos a se manifestar no colegiado fizeram isso em menos de uma hora, garantindo a maioria pela manutenção da prisão do banqueiro. Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o caso.

Nos bastidores, já era dado como certo que a maioria do colegiado concordaria com a decisão do relator, André Mendonça, de mandar prender Vorcaro. Fachin pediu aos colegas que votassem o mais rápido possível. A ideia era arrefecer as expectativas em torno dos votos e, com isso, diminuir a pressão sobre o Supremo.

Por outro lado, o movimento também serviu para mostrar que Mendonça tem o apoio dos colegas na condução das investigações. O relator entrou em choque com parte do tribunal especialmente quando liberou o conteúdo do celular de Vorcaro para a CPI do INSS, o que facilitou o vazamento de mensagens do banqueiro – inclusive uma conversa com Alexandre de Moraes.

O presidente do tribunal não participa das votações nas turmas, apenas no plenário. Ainda assim, interlocutores de Fachin atestam que ele conversou ao menos com Mendonça e Luiz Fux no dia da votação. E que tinha planos de falar também com Kassio Nunes Marques. Os três deram os votos que formaram maioria contra Vorcaro.

A atuação de Fachin nos bastidores mostra que, apesar de ser discreto, está atento à crise. Também revela que pode até estar enfraquecido, mas não está isolado.

Ministros aliados de Moraes, no entanto, cobram atuação mais incisiva de Fachin na defesa do tribunal. O presidente ouviu de um colega a sugestão de fazer isso em cadeia de rádio e TV.

Esse apelo foi feito logo que vazaram mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. Na avaliação de pessoas próximas de Fachin, se ele aceitasse o conselho, soaria mais como uma defesa pessoal de Moraes do que da instituição. Fachin, assim como outros ministros do tribunal, prefere conhecer o conteúdo das mensagens antes de fazer juízo de valor sobre o colega.

O presidente tem dado recados em discursos. Na semana passada, recomendou que juízes atuassem com “saudável distanciamento das partes e dos interesses em jogo”. Ministros ligados a Moraes não interpretaram a fala como defesa institucional – e, sim, como um puxão de orelha. •

 

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