Folha de S. Paulo
Se eleito, filho de Bolsonaro tem boas chances
de governar com maioria golpista no Senado
Tudo que queremos é uma eleição em que
possamos, em caso de derrota, ficar chateados, culpar o neoliberalismo, e
voltar à vida normal
O debate de hoje será sobre o tema "o
golpe de Estado empatou com a democracia na última pesquisa Atlas". Podem
perguntar.
"Mas isso não é um exagero? Flávio
Bolsonaro outro dia fez um post direcionado à comunidade LGBT
usando linguagem neutra. Ele não está moderando?"
Ok, Flávio não dará golpe de Estado, dará golpe de estade. Mas será golpe de todo o jeito. Elu já prometeu soltar os membros da quadrilha golpista de que é membre. Se eleite, tem boas chances de governar com maioria golpiste no senade, o que lhe possibilitaria impichar ministres do STF em um momento em que a imagem do tribunal está fragilizade. Nenhuma outra instituição, além do STF, atuou contra a última tentativa de golpe.
"Celso, até quando a esquerda vai
continuar dizendo que ou é Lula ou
é ditadura?"
Depende exclusivamente da direita. Os
direitistas brasileiros poderiam ter escolhido abandonar o bolsonarismo após o
8 de Janeiro e se reconstruir como força democrática. Em vez disso, um acordão
até hoje não explicado poupou os políticos bolsonaristas da investigação sobre
o golpe. E durante três anos a estratégia direitista foi conversar com um amigo
imaginário chamado "bolsonarismo moderado". Como resultado, o único
oponente viável de Lula no momento é o filho do chefe da organização criminosa
bolsonarista, indicado por seu pai de dentro da cadeia.
"Mas a crise do STF não mostra que os
bolsonaristas tinham alguma razão?"
Filho, preste atenção na voz que disse isso
dentro da sua cabeça. Decore seu tom, sua modulação, seu sotaque, aprenda a
reconhecê-la. É a voz da sua burrice. Ignore-a para sempre e os sucessos se
acumularão na sua vida.
A crise atual do STF se deve à promiscuidade
de membros da corte com os ricos brasileiros. Esse problema existia muito
antes, por exemplo, do inquérito das fake news. O inquérito das fake news foi a
solução legal encontrada para combater o golpe em um contexto em que os golpistas
já tinham neutralizado a Polícia Federal (segundo Sergio Moro no dia em que
renunciou ao Ministério da Justiça), a PGR de Augusto Aras e o Congresso do
orçamento secreto.
O inquérito das fake news também é o motivo
pelo qual, neste exato momento, algum jovem jornalista que teria sido o
Vladimir Herzog da ditadura Bolsonaro hoje tem uma chance razoável de morrer de
velhice.
"Mas então eu não posso criticar os
ministros do STF quando eles fazem mutreta?"
Pode e deve. Mas antes precisa expulsar os
bolsonaristas da sala. A crítica ao STF é um processo de autoaperfeiçoamento da
democracia. Não se pode contaminá-la com os interesses de quem foi impedido de
destruir a democracia pelo STF. Você não discute a educação de seus filhos com
pedófilos que gostariam de estuprá-los.
"Eu não aguento mais ouvir a esquerda
falando de golpe."
Quem não aguenta mais a direita tentando
golpe somos nós. Tudo que queremos é uma eleição em que possamos, em caso de
derrota, ficar chateados por meia hora, culpar o neoliberalismo, e voltar à
vida normal sem nos preocuparmos com perseguição política.
Encerramos aqui o debate. Na saída do
auditório, há café e biscoitos para quem, nos últimos nove anos, tiver acertado
ao menos uma previsão sobre bolsonarismo e democracia.

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