Por Augusto Tenório e Laura Scofield / Folha de S. Paulo
Comissão que apurou descontos indevidos em
benefícios deve terminar sem conclusão de investigação
A base do governo derrotou a oposição na CPI
Mista do INSS ao
rejeitar o
relatório do deputado Alfredo Gaspar (União-AL) na madrugada deste
sábado (28). O texto sugeria o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha
e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Apesar da oposição deter os cargos chaves da CPI, que é presidida por Carlos Viana (Podemos-MG), o governo obteve maioria e o relatório foi rejeitado por 19 votos a 12. A sessão começou por volta das 9h30 de sexta (27) e seguiu até 1h de sábado, data-limite para a conclusão dos trabalhos. O texto analisado foi apresentado minutos antes do início da sessão.
A comissão foi criada para investigar um
esquema que teria retirado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS
entre 2019 e 2024, por meio de descontos associativos não autorizados em
aposentadorias e pensões.
Esses descontos vêm de gestores anteriores,
mas atingiu patamares bilionários após 2022, explodindo durante o governo Lula.
O texto do relator também sugeria o indiciamento
do senador Weverton Rocha (PDT-MA), do ex-ministro da Previdência Carlos Lupi
(PDT), de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e de Augusto Lima, que foi
sócio da instituição financeira. Além do pedido de indiciamento, o relatório
também pedia a prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, o único citado
nominalmente nesse trecho.
Recém-filiado ao PL do ex-presidente Jair
Bolsonaro, o
deputado buscou vincular as fraudes a aposentadorias e pensões ao
governo Lula (PT), com diversas citações ao petista em seu relatório, enquanto
praticamente ignorou a cúpula da gestão anterior. O nome Bolsonaro aparece cinco
vezes nas 4.340 páginas do relatório, enquanto o presidente Lula é citado 37
vezes.
As propostas de indiciamento, se tivessem
sido aprovadas, seriam encaminhadas à PGR (Procuradoria-Geral da República),
responsável por decidir se de fato indicia ou não os alvos.
Como o texto não foi aprovado, há o risco de
comissão acabar sem uma conclusão da investigação que durou sete meses. Isso se
o presidente decidir não pautar o relatório paralelo, elaborado pelo PT, que
sugere o indiciamento, por exemplo, do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como "chefe da organização
criminosa" e excluía Lulinha.
Com o indiciamento do filho do presidente,
o governo
organizou uma operação de reação na CPI visando derrotar o relatório
da oposição e aprovar o parecer próprio.
A sessão teve confusão e bate-boca. Ao
discursar antes de apresentar o texto, Alfredo Gaspar provocou o STF e
parafraseou uma fala do ex-ministro Roberto Barroso contra Gilmar Mendes. O
deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) reclamou, afirmando tratar-se de "um
circo". Na confusão, o petista chamou o relator de "estuprador".
Junto à senadora Soraya Thronicke
(Podemos-MS), Lindbergh participou de entrevista coletiva e disse que as provas
seriam enviadas à PF. Gaspar negou as acusações.
Após a rejeição, o deputado Paulo Pimenta
(PT-RS) falou sobre o resultado. "Esta comissão concluiu seu trabalho sem
ter o relatório aprovado por [conta de] uma decisão política do presidente [da
CPI], do relator, para impedir que nós pudéssemos indiciar Jair Bolsonaro como
chefe dessa organização criminosa."
Já o presidente da comissão, senador Carlos
Viana (Podemos-MG), que defendia a aprovação do texto de Gaspar, disse que
"desde o início da CPMI, a base do governo do PT tentou impedir as
investigações, blindou requerimentos". "Não mediu esforços até junto
com o Supremo Tribunal Federal para tentar nos parar e agora
derrubaram o relatório."
Sobre Lulinha, o relatório de Gaspar afirmava
que os indícios apontavam que ele não era um "mero conhecido" de
Antônio Camilo, "mas alguém que, valendo-se de seu prestígio familiar e de
sua capacidade de trânsito em instâncias governamentais, teria atuado como
facilitador de acesso e possível sócio oculto do lobista em empreendimentos
cuja viabilidade dependia de decisões administrativas no âmbito do Ministério
da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)".
A empresária Roberta Moreira Luchsinger, que
também teria sido indiciada se o relatório fosse aprovado, afirmou que
"não há qualquer elemento de materialidade para o indiciamento por
qualquer delito'".
Sobre o senador Weverton Rocha, Gaspar
afirmou no relatório rejeitado que o senador teve "atuação estratégica
como liderança política e suporte institucional da organização criminosa".
O relator também pediu o indiciamento da
deputada Maria Gorete Pereira (MDB-CE), que teria sido "articuladora
política e integrante do núcleo de comando da organização criminosa responsável
por fraudes previdenciárias no âmbito do INSS".
Ao justificar o pedido de indiciamento de
Carlos Lupi, Gaspar afirmou que o pedido "fundamenta-se em um padrão de
omissão deliberada, prevaricação e blindagem política de agentes criminosos
instalados na cúpula do INSS". O pedetista comandou o Ministério da
Previdência no governo Lula até maio de 2025.
O relator também explicou a inclusão de
Vorcaro na lista de indiciados. Gaspar afirmou que "observa-se um padrão
grave de desconformidades envolvendo o banco Master S.A".
A votação do parecer final foi convocada na
quinta-feira (26) pelo presidente do colegiado, após o
STF (Supremo Tribunal Federal) derrubar a prorrogação da CPI. O prazo
regimental para funcionamento do colegiado encerrou-se neste sábado (28).
A comissão, comandada pela oposição, entrou
em rota de colisão com a cúpula do Congresso ao passar a se debruçar sobre o
escândalo do Banco Master, apesar de seu objeto de investigação ser o esquema
de descontos indevidos nas aposentadorias. Há menções à instituição financeira
no parecer final.
O material que chegou à CPI do INSS expôs a
relação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com figuras como o presidente do PP
(Progressistas), o senador Ciro Nogueira (PI), que é ex-ministro do governo
Jair Bolsonaro e aliado do senador Flávio Bolsonaro, e o presidente do União
Brasil, Antônio Rueda.
Além disso, foram expostos relatos de
conversas com Motta, Alcolumbre, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) e com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), por exemplo.
Também foi exposto o uso, pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), de um jatinho
de propriedade de Vorcaro.
A avaliação, nos bastidores, é que o
escândalo do Master atingiu mais figuras do centrão e da direita, além de
acertar o STF com a exposição dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
A leitura, porém, é que a população tende a associar o Supremo e o governo
federal, o que prejudica eleitoralmente o presidente Lula, que tentará a
reeleição.
Dessa forma, alas do centrão, do PT e da
própria direita pressionaram no STF pela derrubada da prorrogação da CPI, que
poderia funcionar até julho, às vésperas da campanha. A cúpula do Congresso
acreditava que se a comissão fosse prorrogada até um período próximo da
eleição, haveria contaminação dos trabalhos do colegiado pelas campanhas dos
seus membros.

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