Valor Econômico
Num mundo cada vez mais instável, a agricultura nacional depende em mais de 90% de fertilizantes importados
A guerra dos Estados Unidos e de Israel
contra o Irã, e a retaliação iraniana na região, causam estragos também nos
mercados globais de fertilizantes, elevando os preços e reduzindo a oferta em
todo o setor agrícola mundial. Essa situação expõe um ponto crítico da
agricultura brasileira.
Cerca de 25% a 30% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo estreito de Ormuz, que está bloqueado pelo Irã. O estreito liga efetivamente os mercados de fertilizantes da Ásia, América Latina e Europa à temperatura geopolítica do golfo Pérsico, como nota o Rabobank.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil (CNA) não vê no momento risco de desabastecimento no país, apontando
entrada regular de adubo pelos portos e oferta ainda disponível no mercado. O
ponto de atenção, hoje, é preço e logística, mais do que falta física de
produto, diz Maciel Silva, diretor técnico adjunto da entidade. Os preços da
ureia já estão cerca de 39% mais altos do que antes da guerra.
Essa guerra de Donald Trump acrescentou um
prêmio de risco geopolítico aos mercados globais de commodities agrícolas. E,
nesse cenário, é difícil escapar da perplexidade diante da persistente e enorme
dependência brasileira do mercado mundial de fertilizantes.
Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5
milhões de toneladas para um consumo total de 49,1 milhões de toneladas.
Significa que 92% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira vieram
do exterior - bem mais que os 85% normalmente mencionados no setor. O pico da
dependência ocorreu em 2024, quando as importações chegaram a 97% do total
consumido no país, conforme o Rabobank.
A fatura da importação de adubo foi de US$
15,5 bilhões no ano passado, mas já chegou a US$ 24,7 bilhões em 2022 em meio à
invasão da Ucrânia pela Rússia, quando o preço da tonelada dobrou.
O grande setor da economia brasileira
apresenta assim uma vulnerabilidade estratégica evidente. Uma explicação para a
dificuldade de estruturar a resposta a esse calcanhar de Aquiles da agricultura
nacional, segundo fontes, estaria em entraves regulatórios, inclusive
relacionados à exploração de recursos na Amazônia.
Mas a questão que fica é de como foi possível
os atores envolvidos deixarem a situação de dependência chegar a esse ponto. O
mercado de fertilizantes tem um forte componente geopolítico, o que exige
análise além dos fundamentos tradicionais de oferta e demanda, como nota Bruno
Fonseca, especialista do Rabobank.
Os principais fornecedores do país em 2025
foram China (26%), Rússia (25%), Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%). No
entanto, o Brasil compra fertilizantes por todos os cantos do planeta, com
cerca de 70 países fornecedores.
Vale observar a situação de China e Rússia,
que respondem por cerca da metade do fertilizante consumido no Brasil. A
Rússia, maior exportadora mundial, está em guerra com a Ucrânia e sob sanções
internacionais. Embora os fertilizantes estejam formalmente excluídos dessas
sanções, na prática os operadores econômicos seguem afetados. Bancos adotam
“overcompliance”, com excesso de exigências para financiar embarques, o que
entrava o fluxo comercial. E o ambiente de guerra é pesado, inclusive em
Moscou, alvo de ataques de 250 drones, interceptados, no domingo passado. No
caso brasileiro, o fornecimento russo tem ocorrido sem interrupções, mas em
cenário normal haveria maior previsibilidade.
De seu lado, a China restringe periodicamente
exportações como a ureia, para garantir o abastecimento de sua própria
agricultura. Mesmo com preços elevados, como agora, não há expectativa de que
Pequim retome plenamente essas vendas no curto prazo. A Índia, em todo o caso,
insiste para o seu rival chinês flexibilizar as restrições.
Maciel Silva, da CNA, conta que em 2025 houve
uma reacomodação nas estratégias de importação, com produtores brasileiros
buscando melhor custo-benefício diante de preços altos, câmbio volátil e
deterioração das relações de troca. A tendência é de continuidade dessa
diversificação enquanto persistirem as incertezas, e evidentemente enquanto
isso for possível.
Enquanto até agora não há interrupções
significativas no abastecimento global de grãos, oleaginosas ou açúcar e a alta
de preços parece frágil, no mercado de fertilizantes há pressões mais
estruturais, observa o Rabobank. Um conflito prolongado no Oriente Médio pode
restringir significativamente a oferta e sustentar preços elevados por mais
tempo, com impactos sobre a produção agrícola, inflação e acesso a alimentos.
A deterioração da relação de troca pode
encarecer o custo da próxima safra no Brasil, já que será necessário vender
mais produto para adquirir a mesma quantidade de fertilizante, diz Maciel.
Esses insumos representam entre 40% e 50% dos custos variáveis da produção de
grãos, e qualquer oscilação de preços é rapidamente visível nos resultados do setor
agrícola, diz o banco holandês. Para Bruno Fonseca, um conflito prolongado pode
levar os preços a níveis inviáveis para muitos produtores.
Em 2022, o governo Bolsonaro lançou o Plano
Nacional de Fertilizantes, visando reduzir a dependência de importações de
fertilizantes para 45% até 2050, mesmo com a perspectiva de duplicação da
demanda. Mas a nova crise no Oriente Médio reforça a necessidade de o país
acelerar essa estratégia para ter um mínimo de autonomia, num mundo mais
perigoso e fornecedores e alianças mais instáveis e imprevisíveis.

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