quinta-feira, 19 de março de 2026

Guerra expõe elo vulnerável do agro brasileiro, por Assis Moreira

Valor Econômico

Num mundo cada vez mais instável, a agricultura nacional depende em mais de 90% de fertilizantes importados

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e a retaliação iraniana na região, causam estragos também nos mercados globais de fertilizantes, elevando os preços e reduzindo a oferta em todo o setor agrícola mundial. Essa situação expõe um ponto crítico da agricultura brasileira.

Cerca de 25% a 30% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo estreito de Ormuz, que está bloqueado pelo Irã. O estreito liga efetivamente os mercados de fertilizantes da Ásia, América Latina e Europa à temperatura geopolítica do golfo Pérsico, como nota o Rabobank.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) não vê no momento risco de desabastecimento no país, apontando entrada regular de adubo pelos portos e oferta ainda disponível no mercado. O ponto de atenção, hoje, é preço e logística, mais do que falta física de produto, diz Maciel Silva, diretor técnico adjunto da entidade. Os preços da ureia já estão cerca de 39% mais altos do que antes da guerra.

Essa guerra de Donald Trump acrescentou um prêmio de risco geopolítico aos mercados globais de commodities agrícolas. E, nesse cenário, é difícil escapar da perplexidade diante da persistente e enorme dependência brasileira do mercado mundial de fertilizantes.

Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas para um consumo total de 49,1 milhões de toneladas. Significa que 92% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira vieram do exterior - bem mais que os 85% normalmente mencionados no setor. O pico da dependência ocorreu em 2024, quando as importações chegaram a 97% do total consumido no país, conforme o Rabobank.

A fatura da importação de adubo foi de US$ 15,5 bilhões no ano passado, mas já chegou a US$ 24,7 bilhões em 2022 em meio à invasão da Ucrânia pela Rússia, quando o preço da tonelada dobrou.

O grande setor da economia brasileira apresenta assim uma vulnerabilidade estratégica evidente. Uma explicação para a dificuldade de estruturar a resposta a esse calcanhar de Aquiles da agricultura nacional, segundo fontes, estaria em entraves regulatórios, inclusive relacionados à exploração de recursos na Amazônia.

Mas a questão que fica é de como foi possível os atores envolvidos deixarem a situação de dependência chegar a esse ponto. O mercado de fertilizantes tem um forte componente geopolítico, o que exige análise além dos fundamentos tradicionais de oferta e demanda, como nota Bruno Fonseca, especialista do Rabobank.

Os principais fornecedores do país em 2025 foram China (26%), Rússia (25%), Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%). No entanto, o Brasil compra fertilizantes por todos os cantos do planeta, com cerca de 70 países fornecedores.

Vale observar a situação de China e Rússia, que respondem por cerca da metade do fertilizante consumido no Brasil. A Rússia, maior exportadora mundial, está em guerra com a Ucrânia e sob sanções internacionais. Embora os fertilizantes estejam formalmente excluídos dessas sanções, na prática os operadores econômicos seguem afetados. Bancos adotam “overcompliance”, com excesso de exigências para financiar embarques, o que entrava o fluxo comercial. E o ambiente de guerra é pesado, inclusive em Moscou, alvo de ataques de 250 drones, interceptados, no domingo passado. No caso brasileiro, o fornecimento russo tem ocorrido sem interrupções, mas em cenário normal haveria maior previsibilidade.

De seu lado, a China restringe periodicamente exportações como a ureia, para garantir o abastecimento de sua própria agricultura. Mesmo com preços elevados, como agora, não há expectativa de que Pequim retome plenamente essas vendas no curto prazo. A Índia, em todo o caso, insiste para o seu rival chinês flexibilizar as restrições.

Maciel Silva, da CNA, conta que em 2025 houve uma reacomodação nas estratégias de importação, com produtores brasileiros buscando melhor custo-benefício diante de preços altos, câmbio volátil e deterioração das relações de troca. A tendência é de continuidade dessa diversificação enquanto persistirem as incertezas, e evidentemente enquanto isso for possível.

Enquanto até agora não há interrupções significativas no abastecimento global de grãos, oleaginosas ou açúcar e a alta de preços parece frágil, no mercado de fertilizantes há pressões mais estruturais, observa o Rabobank. Um conflito prolongado no Oriente Médio pode restringir significativamente a oferta e sustentar preços elevados por mais tempo, com impactos sobre a produção agrícola, inflação e acesso a alimentos.

A deterioração da relação de troca pode encarecer o custo da próxima safra no Brasil, já que será necessário vender mais produto para adquirir a mesma quantidade de fertilizante, diz Maciel. Esses insumos representam entre 40% e 50% dos custos variáveis da produção de grãos, e qualquer oscilação de preços é rapidamente visível nos resultados do setor agrícola, diz o banco holandês. Para Bruno Fonseca, um conflito prolongado pode levar os preços a níveis inviáveis para muitos produtores.

Em 2022, o governo Bolsonaro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, visando reduzir a dependência de importações de fertilizantes para 45% até 2050, mesmo com a perspectiva de duplicação da demanda. Mas a nova crise no Oriente Médio reforça a necessidade de o país acelerar essa estratégia para ter um mínimo de autonomia, num mundo mais perigoso e fornecedores e alianças mais instáveis e imprevisíveis.

 

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