sexta-feira, 13 de março de 2026

Lula está com a caixa de ferramentas vazia, por Vera Magalhães

O Globo

Ao apostar tudo no 'nós contra eles', presidente não colheu resultado esperado, e, com essa e outras escolhas, abriu mão do eleitor de centro, que garantiu sua eleição em 2022

Ao abrir mão paulatinamente do eleitor da chamada frente ampla, que, na prática, assegurou sua vitória apertada em 2022, Lula plantou a dificuldade que enfrenta agora na largada oficial de sua campanha à reeleição.

Na disputa de quatro anos atrás, o então candidato Lula admitiu em entrevista ao Jornal Nacional a ocorrência de corrupção na Petrobras. Naquela mesma jornada, disse que não disputaria a reeleição em 2026. Fez um aceno ao centro escolhendo o antigo adversário Geraldo Alckmin como vice e se esforçando para atrair o apoio de Marina Silva, no primeiro turno, e o de Simone Tebet, no segundo.

Ancorou sua disputa com Jair Bolsonaro na defesa da preservação do caráter republicano das instituições, na igualdade de oportunidades às mulheres e na transparência dos atos da administração pública, todas elas áreas em que o bolsonarismo promoveu uma política de destruição.

Tão logo chegou ao poder, Lula gastou tempo excessivo combatendo a Lava Jato, a ponto de ser aconselhado a parar de falar de Sérgio Moro em entrevistas. Isso foi acompanhado de uma série de decisões do STF revendo decisões da operação.

Muitas delas encontram amparo em abusos formais cometidos pelo juízo de Curitiba e pelo Ministério Público Federal, mas ao praticamente fazer letra morta da investigação do petrolão —cuja existência o próprio Lula reconheceu—, a Justiça deixou na população um travo amargo que, agora, se revela na volta com tudo da corrupção como tema a gerar preocupação, revolta e mudança de disposição de voto, como mostram as pesquisas divulgadas nesta semana.

As promessas de instituições republicanas e transparência se perderam em decisões como a indicação de Márcio Pochmann para o IBGE, que resultou numa gestão pautada pela ideologia e altamente contestada pelo corpo técnico do órgão, e os muitos sigilos de 100 anos definidos também por essa gestão.

O discurso pró-mulheres não evitou que Lula reduzisse a presença feminina no STF e demitisse várias ministras para dar lugar a homens indicados por partidos aliados. O que se vê nas pesquisas mais recentes é uma perda substancial de apoio ao petista no eleitorado feminino, que praticamente assegurou sua vitória há quatro anos.

Por fim, a reaproximação com o centro, que parecia robusta em 2023, pós 8 de Janeiro e com medidas como a adoção de um arcabouço fiscal que, mesmo não sendo perfeito, mostrava um compromisso com a responsabilidade fiscal, foi se perdendo a partir de 2024 e notadamente no ano passado, com a opção deliberada por um discurso de “nós contra eles” e a guinada à esquerda da chamada “cozinha" do governo, o Palácio do Planalto.

O ganho que Lula esperava colher com isso não veio. Pesquisas como a da Quaest mostram uma reversão da expectativa que havia da população de se beneficiar, por exemplo da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

A despeito de bons indicadores macroeconômicos, Lula e Fernando Haddad, que deixa a Fazenda na semana que vem para aceitar mais uma missão do presidente e disputar uma eleição difícil, não conseguiram convencer as pessoas de que a própria situação melhorou nessa seara.

Nesse cenário já dramático, de simultaneidade de más notícias em diferentes áreas, notícias como o aumento dos combustíveis caem como bomba. E o receituário, também aqui, não foge muito do usado por Bolsonaro: impedir por meio de subvenção o reajuste dos preços. A diferença é que Lula e Haddad fazem isso com impostos federais, e não com chapéu alheio do ICMS dos Estados.

Mais do que pagar pelas opções que fez, não se dando conta de que os chamados “independentes”, ou o centro, poderiam decidir a eleição de novo, Lula parece estar com a caixa de ferramentas vazia. O silêncio diante da evidência de que os escândalos de corrupção estão caindo no seu colo, muitas vezes de forma indevida e exagerada, é a maior prova dessa apatia que abate o governo a poucos meses da eleição.

 

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