CartaCapital
Os vazamentos reabrem a lógica lavajatista
e tensionam o cenário eleitoral
Os intensos vazamentos referentes aos escândalos do Banco Master e do INSS têm produzido notícias capazes de modificar a conjuntura política do País. Em 4 de março, foi divulgado pelo site Metrópoles o sigilo bancário do filho do presidente Lula, solicitado pela CPMI do INSS. No dia seguinte, também saíram no mesmo Metrópoles e no jornal O Globo o registro de supostas trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Os dois casos sugerem uma dinâmica recorrente
que dominou a cena política durante a Operação Lava Jato. Uma relação direta
entre a Polícia Federal e integrantes da CPI com certos jornalistas. Nos dois
casos mencionados, inaugura-se uma lógica de vazamentos reservados para
repórteres selecionados, que escolhem os alvos da execração pública. Como é
sabido, alguns desses jornalistas tiveram papel destacado durante a Lava Jato e
ficaram conhecidos como porta-vozes de grupos próximos ao juiz Sergio Moro, de
quem recebiam o que a República de Curitiba estava interessada em pautar.
Nenhuma notícia sobre as relações próximas e ilegais entre o ex-magistrado e o
Ministério Público ou quanto às formas de chantagem abertas que poderiam ter se
constituído em furos espetaculares fez parte da cobertura da operação. A
pergunta que volta a nos assombrar é se essa mesma dinâmica está de volta à
política brasileira, em um ano eleitoral.
Ao analisar a lógica dos vazamentos, devemos
perceber que ela distorce dois elementos centrais da política. Em primeiro
lugar, em vez de ocorrer uma investigação baseada em evidências, o que se busca
é tentar convencer a opinião pública da culpa de certos integrantes do sistema
político baseada apenas no conteúdo seletivamente publicizado. Muitas vezes, os
fatos relatados não são verdadeiros ou não nos permitem ir além de uma suspeita,
como foi, por exemplo, a conspiração para a fuga de Nestor Cerveró do Brasil
que levou à prisão de um senador e nunca veio a ser comprovada. Em segundo
lugar, os vazamentos provocam o chamado fishing. No episódio do vazamento dos dados bancários do filho do presidente
Lula, ficou claro que ele não teria recebido depósitos de Roberta Luchsinger.
Contudo, nenhuma linha foi escrita sobre o que teria motivado a quebra do
sigilo. As editorias não parecem se importar com a ilegalidade da contínua
exposição das movimentações bancárias de Fábio Luís da Silva, que produzem
forte repercussão política.
A mesma coisa pode ser dita em relação aos
vazamentos de mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes. O formato dos
arquivos referentes às trocas de mensagens entre o réu e o ministro entregues à
CPI é diferente do obtido pela jornalista do Globo, indicando a Polícia Federal
como a possível fonte e permitindo a hipótese de que o réu teria deixado de
propósito “pistas” que apontassem para algumas autoridades da República.
Evidentemente, não é possível negar a priori o não envolvimento do ministro,
mas tampouco é possível afirmar de prima facie o contrário com base em
mensagens cujas emissão do celular de Vorcaro e recepção pelo celular do
ministro não estão comprovadas. Da mesma forma, não se sabe qual teriam sido as
eventuais respostas do magistrado a essas mensagens.
Forma-se, outra vez, o caldo de cultura para
candidaturas outsiders
Especula-se que tais mensagens foram enviadas
a mais de um contato, entre eles o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o
senador Irajá Abreu, a advogada Viviane Moraes e outros políticos, que negam
ter recebido tais mensagens. Assim, é possível perceber um padrão de
direcionamento de suspeitas contra determinadas figuras por parte da PF e da
mídia, que passam a ser consideradas culpadas antes mesmo de ser investigadas.
Em relação aos vazamentos no curso das investigações, não sabemos por qual tipo
de relação direta isso se estabelece pela imprensa e jornalistas.
Temos uma reorientação da conjuntura política
na direção de uma percepção de que todos estão envolvidos com a corrupção.
Cria-se, desse modo, um caldo de cultura favorável a candidatura de outsiders
do sistema político. Assim como no tempo da Lava Jato, há uma imprevisibilidade
muito grande no cenário político, tanto pelo conteúdo das mensagens vazadas
quanto pelo tratamento dado pela mídia ao que vier a ser fornecido por seus
informantes. Contudo, interessa ao Centrão, que controla as duas casas
legislativas e cujas bombas deixadas por Vorcaro repousam no seu colo, que o
escândalo não beneficie politicamente ninguém. Interessa ao mercado que a
incerteza provocada pelo Banco Master e a cadeia de empresas a ele vinculadas
pare de atrapalhar os negócios. Interessa aos bolsonaristas que a lista de
candidatos financiados direta e indiretamente pelo banqueiro e seus operadores
não seja revelada.
Ainda que o modus operandi do caso Master
seja o mesmo da Lava Jato, o escândalo produzido pela psicopatia de Vorcaro é
muito diferente daquela produzida pelos seus equivalentes de Curitiba em dois
aspectos: temos uma maioria no STF mais atenta às manipulações entre policiais
e jornalistas e temos uma PF um pouco mais profissionalizada. Mesmo assim,
surpreende aos observadores políticos que a própria corporação ainda não tenha
tomado medidas para conter os vazamentos que prejudicam a sua imagem e
reputação.
Os episódios recentes indicam que a política
brasileira volta a conviver com uma lógica de vazamentos seletivos que desloca
o centro do debate público das evidências para a construção de narrativas.
Quando informações parciais, muitas vezes não verificadas, são tornadas
públicas em meio a investigações em curso, cria-se um ambiente de suspeição
generalizada que fragiliza instituições, distorce o devido processo legal e
contamina o debate eleitoral. Ainda que o contexto institucional atual
apresente alguns freios inexistentes no auge da Lava Jato, a persistência dessa
dinâmica revela o risco de que disputas políticas e interesses corporativos
passem a operar por meio da exposição pública seletiva, produzindo
instabilidade e incerteza justamente em um momento sensível da vida democrática
do País. O desafio que se coloca, portanto, é garantir que investigações
ocorram no limite da institucionalidade dos órgãos envolvidos e com
transparência, sem que vazamentos e espetacularização substituam o trabalho
efetivo de apuração dos fatos.
*Leonardo Avritzer é cientista político e
professor aposentado da UFMG; Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e
presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

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