Folha de S. Paulo
Protagonismo do Judiciário levanta
questionamentos sobre seus efeitos distributivos e sua legitimidade democrática
Atuação deve ser analisada como a de qualquer
outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e pressões
O Supremo Tribunal Federal é destaque no noticiário político, e isso não é novidade. A novidade é que o holofote agora está na erosão de sua legitimidade. Pesquisas de opinião divulgadas neste mês de março por diversos institutos (Datafolha, Quaest, Ideia, Atlas Intel) convergem ao apontar a queda da confiança dos eleitores no STF.
A queda de confiança no Supremo se dá em meio
a denúncias de envolvimento
de alguns de seus ministros, ou familiares, com o Banco Master e
à dificuldade em avançar na adoção de um
código de conduta que imponha limites mais claros à atuação dos
ministros.
A reputação do Supremo ancora-se, em grande
medida, na imagem de instituição independente e neutra politicamente. É
justamente essa imagem que sustenta a legitimidade da corte para tomar decisões
contramajoritárias e proteger os direitos das minorias políticas e sociais. Mas
o STF está realmente cumprindo esse papel, ou sua atuação apenas corrobora a
desconfiança dos eleitores?
Na primeira
coluna deste ano, discuti o papel redistributivo das cortes
constitucionais a partir de evidências empíricas recentes. O trabalho usado
como referência não encontra correlação entre a existência de revisão judicial
e maior proteção dos direitos de minorias, nem tampouco efeitos sistemáticos
sobre crescimento econômico.
Daniel Wang, professor de direito da FGV São
Paulo, em artigo publicado na Public Law, oferece uma contribuição
importante para esse debate ao questionar a ideia de que tribunais seriam, por
definição, mais técnicos, imparciais ou justos do que os Poderes Executivo e
Legislativo.
Ao criticar essa visão idealizada, Wang chama
atenção para um problema recorrente: a comparação entre o funcionamento
imperfeito das instituições políticas no mundo real e uma versão idealizada do
Judiciário.
Ainda que os tribunais não sejam irrelevantes
ou necessariamente prejudiciais, sua atuação deve ser analisada como a de
qualquer outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e
pressões políticas.
A ciência política há muito caracteriza o
Poder Judiciário como mais um ponto de veto no processo decisório. E pontos de
veto aumentam os custos de implementação de políticas públicas, especialmente
aquelas de caráter redistributivo.
Lembro, por exemplo, a decisão liminar de
2014 do ministro Luiz Fux que
estendeu o auxílio-moradia a magistrados fora do teto salarial, medida que só
foi revertida após o Executivo aceitar aumentar o teto salarial e conceder
reajustes à categoria, mesmo em meio a um cenário de forte pressão por cortes
de gastos.
Tribunais com amplos poderes e crescente
protagonismo acabam assumindo funções que se aproximam das de formuladores de
políticas públicas, mas desprovidos da expertise necessária para lidar com
orçamentos complexos.
Embora os magistrados não se submetam ao
escrutínio das urnas, também não estão imunes às pressões políticas, seja pelo
convívio nos pequenos círculos de poder em Brasília, seja por ameaças de
impeachment cada vez mais plausíveis.
Em um contexto de crescente desconfiança nas
instituições, ampliar o protagonismo do Judiciário sem enfrentar seus limites
não fortalece a democracia, apenas desloca seus problemas.

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