segunda-feira, 23 de março de 2026

MDB, 60 anos: nem Ulysses e Tancredo uniram o partido, por César Felício

Valor Econômico

Partido não deve apoiar ninguém para presidente este ano, mas sem o clima de guerra do passado

Mais à direita do que já esteve na maior parte da sua história, muito menor do que já foi no passado, o MDB completa 60 anos nesta terça-feira mantendo uma singularidade: é o partido onde instâncias regionais, estatutariamente, têm mais poder perante a cúpula da sigla.

Esta particularidade está cobrando seu preço agora, em meio às articulações de palanque que ocorrem junto com a janela partidária. Em dois Estados do Nordeste, Paraíba e Piauí, é provável que o partido simplesmente deixe de lançar candidato a deputado federal.

A formação de uma bancada robusta na Câmara dos Deputados é fundamental para qualquer partido conseguir uma fatia mais relevante do fundo partidário. Mas o MDB, ainda hoje, continua podendo ser chamado de “federação de caciques regionais”. No Piauí, a prioridade da sigla é o acordo com o PSD para a reeleição do senador Marcelo de Castro. Na Paraíba, o partido joga mais alto, e quer eleger o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena para governador, e reeleger o senador Veneziano Vital do Rego. Abrir mão na nominata proporcional ajuda na composição.

O estatuto do MDB afasta a característica cartorial de outros partidos, em que a direção nacional exerce enorme poder. Não há, por exemplo, poder de veto sobre as decisões locais. Não se pode tirar a seção local de uma liderança e entregá-la a outra, porteira fechada. A norma, se dá organicidade e democracia interna, tira coesão e dificulta um projeto de poder. Desde a redemocratização o partido perdeu protagonismo nas disputas presidenciais. E a partir do governo Temer (2016-2018) perdeu protagonismo parlamentar. Foi-se o tempo em que a sigla presidia Câmara e Senado.

Na eleição presidencial desse ano o MDB deve, pela terceira vez, não indicar um candidato a presidente, liberando as direções estaduais para os arranjos mais convenientes. Tudo indica que será uma decisão muito mais pacífica do que as tomadas em 1998 e 2006, quando o partido fez o mesmo. As divisões subsistem no MDB. O que não há mais é o clima de guerra, a convicção de se estar decidindo o destino nacional com a decisão partidária.

A falta de unidade plena se manifestou desde o início. Esta coluna teve acesso às atas de todas as 12 convenções nacionais realizadas pela sigla para escolher o rumo na eleição presidencial desde 1973.

Na primeira delas, há 53 anos, o Brasil era presidido por Emílio Médici e a eleição indireta era apenas um simulacro para legitimar uma sucessão dentro das Forças Armadas, para a qual já estava escolhido Ernesto Geisel. O MDB decidiu jogar este jogo porque percebeu uma brecha: apesar de se viver em uma ditadura, o “candidato” na eleição indireta teria direito a tempo em rádio e televisão para campanha.

O presidente da sigla, Ulysses Guimarães, se lançou, mas não sem resistência da chamada “ala autêntica” do partido, que queria boicotar a eleição indireta em protesto. Durante a convenção, para diminuir as resistências, aceitou aprovar uma moção que condicionava a candidatura à manutenção do direito de se usar a mídia. Havia a desconfiança de que o regime militar, a qualquer momento, retirasse esse direito. Ainda assim, a decisão não foi unânime: Ulysses teve 201 votos e 42 foram em branco e nulos.

Na convenção seguinte, em 1978, o partido realmente achava que tinha chance de cavar dissidências entre os apoiadores do regime militar e ganhar a eleição indireta. Escolheu como candidato um general, Euler Bentes. A resistência da vez não veio dos autênticos, mas do MDB do Rio de Janeiro, que tinha um acordo com o regime para indicar Chagas Freitas como governador do Estado. Euler teve 352 votos e 132 foram em branco e nulos.

Tancredo teve em 1984 uma votação acachapante (656 votos em 721 possíveis), mas ensaiou-se um boicote em relação ao vice, José Sarney, que recebeu 113 votos a menos. A ala esquerda da sigla resistia a compor a chapa com um antigo apoiador do regime.

O MDB (à época PMDB) provavelmente foi o único partido do Brasil a chegar a uma convenção presidencial — a de 1989 — com quatro candidatos, para serem escolhidos em dois turnos de votação: Ulysses Guimarães, Waldir Pires, Iris Rezende e Alvaro Dias. Ulysses tornou-se candidato depois de obter apenas 302 votos em 897 possíveis. Seu adversário no segundo turno, Waldir Pires, que obteve 272, desistiu da disputa para se tornar vice na chapa que terminou em sétimo lugar naquelas eleições.

Na eleição de 1994, a convenção apenas homologou por aclamação o resultado da prévia partidária em que Orestes Quércia teve 81% dos votos e derrotou Roberto Requião. Quércia ganhou, mas não levou o apoio do partido, aquela ocasião ainda imenso. A maior parte das lideranças regionais apoiou de forma tácita a eleição do tucano Fernando Henrique Cardoso.

A disputa na convenção de 1998 foi a mais tumultuada da história do partido, com direito a intervenção policial para garantir que o ex-presidente Itamar Franco, que pretendia ser candidato, pudesse concluir seu discurso. A ala governista tratorou o presidente da sigla, Paes de Andrade, e por 389 votos a 303 impediu o lançamento de candidatura própria, pela primeira vez na história da sigla.

1998 foi um divisor de águas: a partir daquele momento o MDB deixou na prática de disputar poder para buscar ser “fiador de governabilidade”, o que é muito diferente de ser aliado.

Nas últimas décadas o partido uniu-se primeiro ao PSDB e depois ao PT. Em 2018 e 2022 lançou candidatura própria, para negociar governabilidade depois das eleições. É bolsonarista em São Paulo e lulista na Bahia. Sem ter como enfrentar a polarização nacional, tenta resistir regionalmente.

 

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