sábado, 7 de março de 2026

Moraes sob o direito xandônico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Será investir na incompreensão ler as mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes – no dia em que seria preso pela primeira vez – sem ter como norte a existência do contrato, de quase R$ 130 milhões, a cerca de R$ 3,5 milhões mensais, entre o Master e o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro. Diga-se que Moraes, um salvador da pátria acessível, respondeu a todos os zaps do banqueiro, conteúdo indisponível porque apagado.

(Nota: Xandão qualificou como “desprezo para com o Poder Judiciário” haver Débora dos Santos – a “do batom” – apagado mensagens, o que consideraria ocultação de provas; caso em que a falta de provas seria a própria prova. Sorte de Moraes que o direito xandônico não se aplica a ele.)

Havia o contrato milionário; e milhões de razões para Vorcaro acreditar que Moraes pudesse “entrar no circuito do processo” para ajudá-lo. “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” – cobrou o banqueiro. O ministro, operador do 8 de janeiro permanente, era o poder que bloqueara o X/Twitter no Brasil. Vorcaro tinha motivos para crer em Xandão, em cujo colo “tudo de importante afinal fica”, “como a pessoa mais importante do país”.

(Nota: em função de troca de mensagens fanfarronas entre empresários bolsonaristas num grupo privado, no que identificara “nítida finalidade de atentar contra a democracia”, Moraes autorizou operação policial contra o que seria “verdadeira organização criminosa”. Sorte de Xandão que o direito xandônico não se aplica a ele – ou alguém poderia tipificar por obstrução da Justiça a sua atividade com Vorcaro no zap.)

O tão zeloso Moraes – com a quebra-vazamento dos sigilos seus e dos seus – trocava com o banqueiro mensagens sobre o que era produto de violação ao sistema da PF, obra da milícia de Vorcaro, graças ao que tomara conhecimento de que havia, na Justiça Federal do DF, um inquérito contra si, aquele em função do qual seria preso mais tarde naquele dia, e sobre o qual pedia providências ao ministro: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Bloquear o quê?

(Nota: sob o direito xandônico, Xandão teria mandado prender Moraes.)

Com a informação que obtivera ilegalmente, o banqueiro já produzira fato – um “vazamento” – graças ao esquentamento promovido por um site jornalístico, gancho para que peticionasse ao juiz responsável pela investigação tentando impedir “medidas cautelares eventualmente requeridas”. Escreveu Vorcaro, o próprio vazador, a um juiz de

Corte constitucional: “(...) acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem quaisquer detalhes. (...) Se vazar algo será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo. Se tiver alguma novidade vamos falar”.

Vorcaro vazara – para “entrar no circuito do processo”. Para tentar bloquear a sua prisão. “Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Vorcaro, distribuidor de dízimo a milhão, acreditara no Deus errado – talvez se diga. Já se diz que, afinal, foi preso – que acabaria preso. Estaria preso agora fosse Toffoli ainda o relator do caso Master? 


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