segunda-feira, 30 de março de 2026

O Brasil que desafia a política, por Preto Zezé

O Globo

Polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica

O Brasil chega a 2026 com uma sensação estranha. Os indicadores mostram alguma melhora: desemprego mais baixo e certa estabilidade. Mas a vida cotidiana conta outra história. Nas ruas, o que aparece é desânimo, insegurança e medo. Há descolamento entre os números e o sentimento das pessoas.

Li as últimas pesquisas e as levei para o cotidiano. Cruzei a mais recente do Data Favela, sobre os sonhos das favelas, com outros levantamentos que ajudam a entender o humor do país. Mais que isso, escutei. Conversei com trabalhadores de aplicativos, quem está na ponta da precarização, donos de plataformas e também com gestores públicos. É do encontro de dados e experiência que nasce a leitura desse novo ator social e político.

Essa contradição ajuda a entender por que a polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica. São os independentes: gente que não se vê representada por nenhum dos polos e está menos interessada em narrativas e mais preocupada com resultado concreto.

É nesse terreno que a eleição de 2026 será decidida. Não por identidade ideológica rígida, mas por uma pergunta simples: quem faz a vida funcionar melhor? Esse eleitor não quer guerra permanente. Quer renda, segurança e alguma previsibilidade.

No centro da mudança está uma transformação silenciosa: o avanço do trabalho via plataformas digitais. Hoje, 1,7 milhão de brasileiros vivem dessa lógica. É uma força que sustenta o dia a dia das cidades, mas que opera sem proteção e com renda instável.

A promessa inicial era de autonomia. Ser dono do próprio tempo. Mas o que se consolidou foi um modelo de dependência, com jornadas longas e todos os riscos nas costas do trabalhador. A liberdade vendida virou, muitas vezes, obrigação. Ao mesmo tempo, esse universo é atravessado por outra disputa: a das narrativas. Influenciadores ocupam espaço oferecendo saídas individuais, baseadas na ideia de que esforço e mentalidade bastam. É um discurso sedutor, mas que ignora as condições reais. O resultado é uma combinação perigosa: precarização e promessa constante de ascensão. Quando a conta não fecha, abre-se espaço para frustração e descrença.

O Brasil de hoje já não cabe nas categorias tradicionais. Existe um país novo em formação, movido por trabalhadores informais, empreendedores de sobrevivência e uma juventude que oscila entre o sonho digital e a dureza do cotidiano. São mais de 32 milhões de brasileiros nessa condição. Invisíveis para muitas políticas públicas e mal compreendidos pelo debate político. Ignorar esse grupo é não entender o país real. E mais: se a democracia não contemplar esse contingente, perde utilidade na prática.

O desafio não é escolher entre mais Estado ou mais mercado. É construir uma síntese. Um pacto que reconheça a autonomia sem abrir mão da proteção. Que garanta renda mínima, regras claras nas plataformas e acesso à seguridade. Também é preciso ressignificar o empreendedorismo. Empreender não pode ser apenas sobreviver sozinho. Precisa de crédito, formação e rede. Caso contrário, vira só um nome melhor para a precariedade.

A eleição não será decidida por quem grita mais alto. Vencerá quem entender melhor o Brasil emergente. Um país que rejeita respostas fáceis e exige, antes de tudo, ser levado a sério. Antes de disputar o futuro, é preciso encarar o espelho.

 

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