O Globo
Os Estados Unidos tornaram-se um Estado
perigoso
"Se o Irã não abrir completamente, sem
ameaças, o Estreito de Ormuz, em 48 horas a partir deste momento, os Estados Unidos obliterarão
suas várias centrais elétricas, começando pela maior delas." O ultimato de
Donald Trump de 21 de março, um blefe como logo se constatou, prova que a maior
potência mundial converteu-se à barbárie. Bombardear infraestruturas civis
viola as leis de guerra. Estados cometem crimes de guerra, às vezes
deliberadamente. Mas nunca prometem cometê-los.
Trump copia Putin, a quem inveja. O autocrata russo nomeou sua guerra de conquista na Ucrânia como “operação militar especial”. O presidente americano batiza sua guerra de escolha no Irã como “excursão”. Seu motivo: circundar as leis dos Estados Unidos que exigem autorização do Congresso para fazer guerra. O governo da potência que patrocinou a criação da ONU e impulsionou a Declaração Universal dos Direitos Humanos coloca-se fora da lei, tanto interna quanto internacional.
Trump opera como chefe mafioso. Bombardeia
barcos sob a alegação de que serviriam ao narcotráfico. Ameaça anexar a Groenlândia.
Sequestra o ditador-presidente da Venezuela. Diz que terá “a honra de
tomar Cuba”.
Ataca o Irã de surpresa, em meio a negociações entre representantes iranianos e
seus próprios enviados, transformando a diplomacia em encenação para ciladas.
Ninguém mais confia na palavra da Casa Branca. Os Estados Unidos tornaram-se um
Estado perigoso.
O governo Trump delicia-se em exibir
destruição. Nos vídeos de propaganda da guerra no Irã postados pela Casa
Branca, misturam-se imagens de bombardeios devastadores com trechos de
videogames e momentos esportivos. O culto frenético à pura violência descortina
um assustador declínio moral.
Ao longo de décadas, os Estados Unidos
justificaram suas ações militares, tanto as reprováveis quanto as virtuosas,
pela invocação das leis internacionais, dos direitos e das liberdades. A adesão
retórica a valores universais tinha a vantagem de proporcionar uma régua para
crítica e protesto. Não mais: Trump ameaça incinerar inimigos ou invadir nações
aliadas pelo simples motivo de que suas Forças Armadas detêm o poder de fazer
isso. Os Estados Unidos cortam relações com o mundo civilizado.
A exposição das torturas a prisioneiros na
prisão militar americana de Abu Ghraib, no Iraque, em
2003-2004, constrangeu o governo de George W. Bush e as linhas de comando
envolvidas. Hoje, o crime foi alçado à condição de política oficial. A guerra é
o inferno, mas Trump e seus subordinados a enxergam como orgia.
Segundo a versão de um Trump gabola, oficiais
militares confidenciaram a ele ser “mais divertido afundar navios do que
capturá-los”. Explicando seus paradigmas, Pete Hegseth, o secretário da Guerra,
falou como um desclassificado chefe de gangue:
— Nada de regras de combate estúpidas, nada
de guerras politicamente corretas.
Nas primeiras horas de bombardeios, mísseis
americanos destruíram uma escola infantil iraniana, matando 168 civis, entre os
quais mais de cem crianças. Provavelmente não foi deliberado, mas reflete a
perversão cultural expressa por Hegseth.
Na Guerra de Independência, quando recebeu
notícias de massacres cometidos pelas forças britânicas, George Washington
escreveu que “sua crueldade sem freios prejudica sua causa, em vez de
beneficiá-la”, pois “garante para nós a afeição de todos os homens íntegros”. O
sanguinário regime militar-teocrático iraniano não deve ser equiparado aos
colonos que combatiam a potência europeia nem conta com a simpatia de qualquer
pessoa decente, mas também beneficia-se da delinquência orgulhosa do sucessor
distante de Washington.
Ao final de um mês de guerra, o regime
de Teerã sobrevive
às forças imensamente superiores dos Estados Unidos e de Israel — e vai
bem além disso. O Irã assumiu o controle militar do Estreito de Ormuz, tomando
como reféns os mercados financeiro e petrolífero. Os substitutos dos dirigentes
iranianos eliminados, oriundos da Guarda Revolucionária, fortaleceram o poder
interno do regime, afastando o espectro de uma revolução popular. Trump, o
fanfarrão destruidor de mundos, perdeu-se no labirinto de seu videogame.

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