Folha de S. Paulo
No final da semana passada, efeito da guerra
no mercado de juros ficou preocupante no Brasil
Petróleo mais alto por mais tempo pode elevar PIB e fazer estrago político na inflação
Em fevereiro, os donos do dinheiro grosso
acreditavam que a taxa básica de juros, a Selic, baixaria
de 15% para 12% ao ano até fins de 2026.
Essa crença, digamos, pode ser medida pelos preços do atacadão do mercado de dinheiro, que define o custo de financiamento da dívida do governo e uma espécie de piso para as demais taxas de juros, dos bancos ao mercado de capitais.
No final da semana passada, a crença era de
que Selic ficaria na casa dos 13%, perto de 14%. As taxas já subiram de modo
impressionante para todos os prazos. A guerra
começa a pesar na economia.
Pode ter sido acidente, em parte e a depender
do que vai ser de guerra, petróleo e
finança dos EUA. Os donos do dinheiro acreditavam em queda relevante da taxa de
juros. Montaram operações para faturar com isso (sim, ganham com variações de
taxas, inclusive para baixo, se acertam a direção do vento). A guerra suspendeu
a crença na baixa. O pessoal perdia muito. "Desmontou posições".
No mercado, a probabilidade
de que o Banco Central não baixe a Selic está em 38%; a de corte de
0,25 ponto percentual, em 55%. O BC deve começar com um talho mínimo e esperar
para ver como é que fica.
Ninguém tem ideia de como Donald Trump vai
limpar a sujeira que fez. A crise pode ser muito atenuada com um tuíte
mentiroso de Trump, um "trumpite" declarando vitória e retirada, ou
pode ser choque duradouro, muito pior que o do início da guerra da Rússia
contra a Ucrânia, que contribuiu para a grande inflação mundial
de 2022.
Sem crise econômica ou financeira nos países
centrais, uma alta do preço médio do petróleo por um ano pode
elevar o crescimento do Brasil e a receita do governo. Se ficar perto de
US$ 80 na média de um ano, como prevê a Agência de Informação de Energia do
EUA, pode elevar o PIB em meio ponto percentual. Somos agora um país
petroleiro.
Mas a inflação será maior, até porque outros
custos vão subir também. Se a carestia afetar alimentos, é problema político.
Não será compensada por meio ponto extra de PIB, que o povo nem vai notar.
Metade do país não dá bola para o melhor crescimento em uma dúzia de anos.
A hipótese benigna depende também do preço
do dólar, ressalte-se: depende dos donos do dinheiro do mundo, biruta
muito mais instável desde Trump 2. A entrada de dólares no Brasil ao longo de
2025, com a ajuda dos juros do BC, conteve inflação que estava à beira de ficar
descabelada e, pois, de avariar as chances de Lula 4 (a não
ser que Lula 3 fizesse um pacotaço fiscal, o que despreza. O presidente acha
que descobriu o motor contínuo do crescimento).
Lula tomou a medida de emergência, aceitável
no curto prazo, de subsidiar o diesel, o que será pago por exportadores de
petróleo. Mas é paliativo pequeno.
Em caso de alta duradoura do petróleo, Lula
não terá mais nada de responsável a fazer quanto a custo de combustíveis, afora
gambiarras muito comedidas. Se por mais não fosse, o governo não tem dinheiro e
a dívida cresceu de modo arrepiante e perigoso sob Lula 3.
Lula tem de lidar com um mundo ainda mais
desgraçado por Trump. O ano terá ainda o tumulto da investigação do Master.
Essa máfia é mais conectada ao comando dos principais partidos do centrão e do
direitão, mas a propaganda pelas redes pode colar essa sujeira no governo.
Para quem não gosta de que falem das
"sortes" de Lula: o presidente está com "azar" e sem meios
maiores de lidar com o infortúnio.
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