Por O Globo com agências internacionais
Autor de obra extensa, ele foi um dos nomes centrais do pensamento europeu do pós-guerra
O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas
morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, no sul da Alemanha. A
morte foi informada pela editora Suhrkamp. Com uma obra que atravessou a
filosofia, a sociologia e a teoria política, Habermas foi um dos nomes centrais
do pensamento europeu do pós-guerra.
Considerado uma das vozes mais influentes do debate público alemão nas últimas décadas (e o intelectual alemão mais influente de sua geração), Habermas ficou associado a reflexões sobre democracia, racionalidade e vida em sociedade. Seu trabalho ajudou a consolidar conceitos como o da esfera pública e o da ação comunicativa, que se tornaram referências dentro e fora da academia.
Jürgen Habermas esteve envolvido em todos os
grandes debates do pós-guerra. Ele considerava a Europa o único remédio frente
ao auge dos nacionalismos. Ao longo de sua vida, vinculou filosofia e política,
pensamento e ação. Sua autoridade moral lhe rendeu reconhecimento
internacional.
Testemunha do Nazismo
Nascido em Düsseldorf, em 18 de junho de
1929, Habermas cresceu sob o impacto da ascensão e da queda do nazismo,
experiência que marcou profundamente sua formação intelectual. Ainda bem jovem,
ele foi incorporado, por insistência do pai, à Juventude Hitlerista, embora
fosse jovem demais para participar ativamente da guerra. Sua adolescência
acabou sendo marcada pelo colapso do nazismo, pouco antes de atingir a idade
para ser convocado.
Jürgen Habermas estudou nas universidades de
Göttingen (1949/50), Zurique (1950/51) e Bonn (1951–54) e obteve um doutorado
em filosofia em Bonn, em fevereiro de 1954, com uma dissertação sobre a tensão
entre o absoluto e a história no pensamento do filósofo alemão Friedrich
Wilhelm Joseph Schelling.
Em 1956, Habermas tornou-se assistente de
pesquisa de Theodor W. Adorno no Instituto de Pesquisa Social (IfS) da
Universidade de Frankfurt am Main. De 1956 a 1959, estudou filosofia e sociologia
com Adorno e o também teórico crítico Max Horkheimer no IfS. Na época, esteve
envolvido no início do movimento antinuclear.
Mais tarde, o alemão se tornaria um dos
principais representantes da chamada segunda geração da Escola de Frankfurt, em
diálogo com a tradição crítica inaugurada por Adorno e Horkheimer.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está a
obra em dois volumes “Teoria do agir comunicativo”, em que propõe a linguagem e
o debate racional como bases para a construção do entendimento social. Ao longo
da carreira, Habermas também escreveu sobre direito, modernidade, ética e
cidadania, sempre combinando elaboração teórica e intervenção nos temas
políticos de seu tempo.
A defesa da modernidade e da sociedade civil
feita por Habermas foi fonte de inspiração para muitos pensadores e é
considerada uma importante alternativa filosófica às diversas vertentes do
pós-estruturalismo. Ele também ofereceu uma análise influente do capitalismo
tardio.
O alemão argumentava que a competência
comunicativa se desenvolveu ao longo da evolução, mas na sociedade
contemporânea ela é frequentemente suprimida ou enfraquecida pela forma como
importantes domínios da vida social, como o mercado, o Estado e as
organizações, foram entregues ou absorvidos pela racionalidade estratégica/instrumental,
de modo que a lógica do sistema suplanta a lógica do mundo vivido.
Além da produção acadêmica, ele teve
participação ativa em discussões públicas decisivas na Alemanha. Manifestou-se
contra a radicalização do movimento estudantil dos anos 1960 e enfrentou teses
que relativizavam os crimes do nazismo durante a chamada “disputa dos
historiadores”. Trinta anos depois, tornou-se alvo de criticas, ao denunciar os
riscos de um "fascismo de esquerda" para o Estado de Direito.
Em 1989, Habermas criticou as modalidades da
reunificação alemã, guiadas principalmente pelas exigências do mercado e que
faziam do Deutsche Mark (o marco alemão) seu estandarte. Nas últimas décadas,
defendeu a integração europeia e criticou o esvaziamento do debate político. Em
seus últimos anos, dedicou seu tempo a promover um projeto federal europeu, a
fim de evitar que o Velho Continente caísse novamente, como ocorreu no século
XX, nas rivalidades nacionalistas.

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