terça-feira, 24 de março de 2026

O país da delação séria, por Fernando Gabeira

O Globo

Como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um segredo de mentirinha.

Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história. Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.

É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado, quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais — muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”, essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.

Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130 milhões do contrato com a mulher de Alexandre de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que, ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O dinheiro investido no resort em que familiares de Dias Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.

 

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